SISTEMAS À MESA

As novas modas do Natal ditam que fazer o Jantar ou almoço de Natal num hotel, traz qualidade de vida para toda a familia, mas especialmente aos que oferecem a casa para as festividades e que obviamente ficam sobrecarregados com toda a logística antes, durante e depois das festas. Que bom é regressar a casa após as festas e não ter de desfazer as mesas, lavar loiça, carregar novamente tábuas e cadeiras para a arrecadação, redecorar a sala que foi ajustada para todos caberem, aspirar e limpar o pó no dia seguinte, limpar casas de banho, puxadores de portas, interruptores, limpar sofás e tirar nódoas de cadeiras, arrumar os restos no frigorífico e ir ao lixo vezes sem conta… Que bom que é chegar em familia e desfrutar do espaço exactamente como o deixámos…

Talvez exista um limite para o esforço, ou talvez o esforço comece a não valer “o esforço”… Ou se calhar é mesmo assim e está tudo bem…

Mas passando ao Hotel. Ter tempo para observar as dinâmicas familiares foi uma das vantagens que encontrei neste novo modelo natalicio. Primeiro percebi que Almoçar ou jantar num hotel é passar um natal mergulhado numa sala com dezenas ou ate centenas de sistemas familiares. Ora vejamos, cada pessoa traz consigo o sistema do pai e da mãe, logo cada casal carrega consigo quatro sistemas directos bem fortes… assim eu levo comigo o Moreira Jesus e o meu marido, leva o Lérias Ramos, os meus filhos levam os Jesus e os Ramos e cada um que se senta na nossa mesa, leva como nós os sistemas de pai e de mãe…Ora cinco irmãs, respectivos cunhados e pais de alguns cunhados, transformam a nossa mesa num banquete sistémico!

Quando falamos de psicogenealogia e da terapia transgeracional , falamos das heranças transgeracionais que todos carregamos ; os amores e desamores , os sucessos e frustrações, as tristezas e alegrias , em suma carregamos cada um os Legados Positivos e Negativos dos nossos sistemas. Assim para onde formos, transportamos tudo o que herdamos sem saber que herdamos. Há uns meses uma cliente conseguiu vencer uma inveja doentia a uma irmã, quando identificou a sua lealdade a uma avó que tinha sido abandonada pelo seu noivo em troca da irmã, perpetuando assim um trauma transgeracional… “somos muito menos livres do que pensamos” ( Anne Shutzenberg)

Durante o meu almoço de natal, observei cada mesa e em cada uma, tal como na minha, era como se paira-se um furacão, numas maiores que noutras, numas mais localizados do que em outras…

Observei emoções, umas conscientes, outras inconscientes… observei mal estar, vontade de estar alí e vontade de não estar. Observei contrariedade, comprometimento, defesa, entrega… Observei amor e desamor, inveja, ciúme, revolta… Observei como as emoções se soltam sem que se perceba como, com ou sem um copo de vinho…

Na verdade, muitas vezes reagimos sem perceber as verdadeiras origens , e acabamos por descarregar noutros, emoções que despertam ou activam mecanismos de sobrevivência emocional…Arranjam-se bodes expiatórios e desculpas sobre acontecimentos posteriores ao nascimento dessas emoções… O sofrimento e a necessidade de justificar as raivas, ciume ou inveja, inverte a ordem dos acontecimentos, ora vejamos um exemplo dessa dinamica:

O Paulo, diz que desde miúdo sempre sentiu raiva do primo. Mas há uns tempos o primo teve um comportamento que ele reprovou e a partir daí a sua raiva/ciume e inveja foi validada e nesse sentido perguntei:

” Mas antes disso acontecer já tinha esses sentimentos de raiva, ciume e inveja certo ?”

“Sim tenho raiva dele desde miúdo , e agora não me interessa , o que ele fez só me veio dar motivos!”

Mas foi posterior ? – repeti

-Sim sim isto que aconteceu foi há três anos … raiva dele tive sempre, por ele ter mais que eu, por ter as namoradas todas , por ter mais dinheiro!

E não acha importante saber o porquê dessa raiva ? Fica contente por ter um motivo que não é a base ? Já pensou que o que ele fez recentemente, pode ser apenas uma consequência da raiva que você sempre lhe transmitu ?

Mas eu nunca manifestei essa raiva , escondi sempre, fingi sempre estar tudo bem !

-Entenda que isso não existe, as pessoas sentem o que sentimos por elas, podem não saber o porquê, mas a energia que enviamos para os outros é recebida na sua central. Quando manifestamos energeticamente uma emoção, ela chega ao receptor… A energia não se disfarça com sorrisos nem com silêncio… Era importante perceber a origem dessa raiva, porque pode não ter nada a ver com essa pessoa, mas sim com algo que ela representa para si!

Esta é uma dinamica que acontece em quase todas as familias, as pessoas projectam as suas questões nas outras, diferentes personalidades, diferentes visões, uns relativizam outros complicam, uns desvalorizam, outros dramatizam. Ainda para além dos sistemas, existe a forma como cada um interpreta e sente o que herda, a forma de estar de cada um, as crenças familiares, sociais e culturais, os traços de personalidade e a educação que recebeu e o que faz da seu processo individual.

Longe de tachos e panelas, observei as emoções que dançavam naquele grande encontro entre sistemas, umas manifestas, outras contidas, embrulhadas em papel, algumas a caminho do WC , em cigarros fumados, ou em copos bebidos…

Sou grata a cada presença e a tudo que se tem revelado diante dos meus olhos, à capacidade que fui ganhando em olhar para cada pessoa com maior conhecimento, amor e compaixão, a capacidade em ver para além do que parece óbvio, grata a todos os mestres e amigos que me tem ajudado a fazer um caminho de autoconhecimento, sou grata aos meus pais e aos meus avós; de uns recolhi esta vontade e sede de conhecimento e de outros a coragem de o colocar em prática, finalmente à minha alma sou grata pelo percurso feito, a forma como me consegui movimentar no meu sistema, a busca de cura, e a libertação que me permite a cada dia escolher o que quero conhecer e saber quem SOU .

Boas Festas

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