Não desorganizem as crianças

Há uns dias participei num encontro com alguns pais, de crianças com idades compreendidas entre os 3 e os 10 anos. As partilhas foram surgindo de forma natural, e como é usual nestas situações, os pais exibem de forma orgulhosa a sua parentalidade e os feitos dos seus filhos, que naturalmente julgam sempre melhores que os dos outros.

Nesse contexto, uma mãe dizia que o filho era quem decidia o local das férias, outra das participantes dizia-me que era a filha quem escolhia os lanches que levava para a escola durante a semana, um pai orgulhoso partilhava que as visitas à avó ao fim de semana, eram decididas pelo filho… outros pais foram trocando os grandes feitos educativos para o desenvolvimento de autonomia e das decisões que colocavam nas suas mãos, como se isso fosse sinónimo de muita ou pouca inteligência.

Na verdade a autonomia é uma competência fundamental a desenvolver e estimular durante a infância, e existem dezenas de tarefas que a podem estimular e alimentar diariamente; comer sozinho, vestir-se sozinho, escolher os brinquedos com que quer brincar, jogar e saber lidar com o perder e ganhar resultante do seu desempenho, resolver os TPC sozinhos, actividades motoras , ter utensílios e produtos que possam manusear.

Mas… existe uma grande diferença entre educar para a autonomia e o bom desenvolvimento psíquico e motor e um educar que inverte os papéis e responsabilidades, deixando as crianças com um peso de “decisão” que não lhes pertence, e até expostas a consequências graves.

Durante a conversa em questão, mantive-me no papel de observadora , e um dos pais, notoriamente mais velho que os restantes, interrompeu a conversa:

” Alguns de vocês sabem que o Rodrigo é o meu quarto filho com uma diferença de dez anos do terceiro. Aprendi da pior maneira que deixar os miúdos decidir coisas que devemos ser nós a decidir, pode dar muito mau resultado. E o que aconteceu ilustra de forma muito prática o que julgo ter sido um dos meus maiores erros: dar um poder de decisão ao meu filho com 7/8 anos, sem pensar se ele conseguiria viver com todas as consequências que daí resultassem!”

Alguns dos pais responderam :

“Não estamos a perceber !”

E ele continuou:

“Bem passo a explicar: passei durante algum tempo ao Afonso , o meu terceiro filho, a decisão do caminho para o colégio! Ou seja o afonso diariamente decidia se íamos pela esquerda ou pela direita da nossa quinta! Uma experiência que correu bem, até ao dia que um dos nossos gatos , o que o afonso mais gostava, se atravessou no caminho que o Afonso escolheu, e eu sem querer o atropelei…o gato morreu e… o que aconteceu ? “

Fez-se um silêncio na sala :

” O Afonso tomou a responsabilidade e culpa do acidente para ele, e só dizia “se eu não tivesse escolhido este caminho , o gato não tinha morrido” e pior, dizia que se ele não tivesse escolhido o caminho eu não tinha atropelado o gato, pedia me desculpa! Foram meses de trabalho com ele, passou a ter medo de decidir sobre tudo! Percebi o meu grande erro, que o desorganizei internamente, percebi que aquilo nada tinha a ver com autonomia mas sim com responsabilidade excessiva, existe um tempo para tudo , percebi que não poderia colocar nas suas costas todas as boas ou más consequências de uma escolha que parecia simples, mas implicava muita responsabilidade. Uma responsabilidade que ele não tem idade para processar”

O exemplo deste pai foi claro e ilustra os perigos a que se expõe a criança, quando se passa o poder de decisão que nada verdade, invertem os papéis, quando se coloca nas mãos deles, decisões que são nossas.

Num jantar de amigos, estávamos todos a conversar e o filho de um dos nossos amigos com dois anos e meio dirigiu-se a um dos nossos amigos e mandou-o sair da cadeira, queria ir para lá! Não querendo contrariar a criança o Carlos ia levantar-se, e fiz-lhe sinal de imediato para não o fazer.

O miúdo sentou-se no chão surpreendido por não lhe terem dado o lugar, esteve ali cerca de um minuto a olhar para o chão, perguntei-lhe se queria sentar-se ao pé de mim, levantou -se e foi à vida dele.

O Carlos perguntou-me. ” Levantar-me era mau ?”

Respondi :

Sim , tu és um adulto, estávamos a conversar e ele precisa de saber o lugar dele, não pode chegar simplesmente e mandar um adulto, que é supostamente uma pessoa que o pode proteger, sair do seu lugar… Quando o fazemos estamos a desorganiza-lo e a mensagem subliminar é que “estás por tua conta” … É importante perceber as dinâmicas … Não podemos desorganizar as crianças…

Escolher o local das férias, escolher o que quer comer todos os dias, as visitas que se fazem aos avós, o caminho para a escola, sair do lugar porque a criança quer ocupar o lugar onde está o adulto, são tudo comportamentos que desorganizam as crianças! Promover a autonomia é uma coisa, dar-lhes um poder de decisão que é nosso, vai desorganiza-las e colocar um peso enorme às suas costas!

A Infância é um lugar de descoberta… é a brincar que devem descobrir que as suas escolhas tem consequências…

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