Há uns dias, vi um post de um colega e amigo, Mário Rui Santos, sobre uma frase de Mia Couto que dizia: “Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso.”
Neste contexto, o psicólogo e psicoterapeuta Gastão Ribeiro comentava: “Rir junto é mais do que um reflexo momentâneo: é um sinal de que o corpo se sente seguro, de que a mente encontrou espaço para relaxar e de que a vida pode ser vivida com mais espontaneidade. E que a autocura passa por recuperar essa liberdade.”
A minha empresa, ANA SOARES PRODUÇÕES, faz 20 anos em março.
A produção, o acompanhamento e a orientação de pessoas foram duas atividades presentes na minha vida, que caminharam lado a lado ao longo destes 30 anos. Em certos momentos, uma mais à frente que a outra, mas, dentro de mim, os objetivos de uma nunca poderiam contrariar a missão da outra.
Quando me perguntam qual a ligação entre a minha atividade de produtora de humor e a minha atividade de terapeuta e orientadora, a resposta dentro de mim sempre foi óbvia: rir é terapêutico, é uma linguagem que nos une. Sempre usei a expressão de que rir é “o melhor remédio”, com plena convicção do que estava a dizer.
Quando entrei na área do humor, tive receio, por tudo o que via acontecer. O stand-up explodia na televisão e eu não achava piada nenhuma àquilo.
E, nesse sentido, salvaguardo convictamente que, para mim, não se pode fazer rir a qualquer custo.
Para conseguir desfrutar do humor livremente, como diz Henri Bergson, precisamos de nos desvincular momentaneamente da moral. Creio que, para isso acontecer de forma plena, deveríamos ser donos de uma forte saúde mental e de uma dissociação emocional exímia, o que, convenhamos, é cada vez mais difícil perante a complexidade da sociedade em que vivemos e a completa ausência de educação sócio-emocional.
Entendo assim que a sociedade em que vivemos precisa de especial atenção. Mais do que nunca, a questão dos limites do humor nem se coloca. Coloquemos, antes, alguns limites ao humor destinado a massas, para que não faça pior do que melhor ao tecido social.
Que se pratique o humor sem limites em casa, nas paredes dos camarins. Quando o fazemos para as massas, há que ter alguns cuidados: primeiro, ter consciência da sociedade em que se insere e, nessa consciência, não se desresponsabilizar pelos efeitos negativos provocados pelo seu humor. Se não o fizer, então está a ser egoísta, inconsequente e redondamente enganado sobre o papel que a arte pode ter para o bem comum, pensando apenas na sua conta bancária e nos bens que pode comprar com o mal que faz — aliás, como qualquer comerciante de outra porcaria qualquer.
Assim como os cantores de intervenção usam a música para alertar consciências, a arte do humor para as massas deve ser usado em prol do bem geral, em vez de estimular relações abusivas, bullying, falta de limites sobre a liberdade do outro, desigualdade de género, etc. Sabendo a forte Influência que artistas tem sobre o fãs , existe o grande risco da repetição. Neste sentido é importante não esquecer que o palco do nosso público é a rua em que vivem e as pessoas com quem se relacionam, fora de contexto artístico . Queriam ou não, são educadores !
Encontrei cedo, no projeto que produzo e co-crio com Marco Horácio, que faz por estes dias 20 anos, tantos quantos os que tem a empresa , uma coerência enorme com o meu compromisso e responsabilidade social sobre tudo o que produzo.
Recusei sempre participar em produções que estupidificam pessoas e ou trabalhar com humor fácil, bully e egóico.
A partir deste lugar difícil e competitivo da produção de espetáculos, posso dizer com orgulho que, há 20 anos, presencio plateias em franca produção de neuroquímica do bem…
Sou grata ao Marco Horácio por me ter permitido construir com ele um personagem que não magoa. Sou-lhe grata por me ter escutado em 2021, quando percebi que tínhamos de acompanhar os tempos. O que fazia rir há 16 anos agora estava a magoar…
Pensamos os dois, refletimos os dois e encontramos novos caminhos, desafiando as dificuldades da mudança e o risco de perder o personagem. Mas o foco era maior: o objetivo de levar às pessoas momentos de humor que não beliscassem a maldade, a maledicência e a intimidade de terceiros, e que produzissem neuroquímica de qualidade.
Rir juntos… é isso que artisticamente temos construído desde há 20 anos. O Horácio, de forma artística exímia, conquista o público, um estar no humor que é muito mais do que artístico. E eu, com o estar em produção, que vai muito além das vendas e dos números…
As pessoas importam-nos MUITO.
O que tem a ver a minha atividade de produtora com a de terapeuta?
Tudo. No gabinete ou perante uma plateia, SEI que a química que quero deixar é sempre para o bem, para a autocura, para a liberdade.
Grata a todos que me acompanham…
20 anos… É muito tempo. Pouco para o que é preciso ser feito. Pouco para a tomada de consciência sobre os efeitos de tudo o que produzimos…
Entretanto, que continuemos a RIR JUNTOS.

