Como se devolve a “vontade de viver” ?
São muitos os motivos que podem activar o gatilho da “falta de vontade” para viver.
Entendo que até podem existir motivos válidos para não querer fazer parte de um mundo completamente doente. Vivemos tempos particularmente difíceis para aqueles que não conseguem viver sem olhar para o lado, para os que procuram manter alguma sanidade mental, para os que fazem o “caminho menos percorrido” de desenvolvimento pessoal e sabem que o AMOR ao próximo e a si, é a unica forma de encontrar a plenitude e serenidade interior e exterior. Olhando para o mundo de plástico que se está a criar em todas a dimensões, é dificil ter esperança, sabendo que o caminho é precisamente no sentido oposto e que o fosso está cada vez maior. Mas ainda assim existe uma grande diferença entre não querer fazer parte disto, ter vontade de ir embora ou perder a vontade de viver.
Perder a “vontade de viver” é diferente de “não querer estar aqui”. A “vontade de viver” é uma força que vem de dentro. E não tem muito a ver com status , com dinheiro, com ganhar ou perder , com amores ou desamores.
Ontem a caminho da ponte 25 de Abril, no sentido oposto em que circulava, reparei que um homem entrava na ponte a pé, circulava através dos gradeamentos, não era um funcionário de manutenção, era um cidadão comum… não hesitei , liguei para a autoridade da ponte, a avisar que no sentido norte/sul, talvez estivesse a circular alguém que poderia ter perdido a “vontade de viver”… independentemente de ser ou não, é perigoso circular ali…
Sei que o meu telefonema, e o facto de alguém poder ter evitado que não o fizesse, não lhe “devolve a vontade de viver”…mas pode ser que algo aconteça entre uma coisa e outra, que a faça aparecer!…
“Perder a vontade de viver” pode ser simplesmente quimico, o corpo pode ter deixado de produzir o “hormónio da felicidade” , sim é possível! Pessoas que se expõe, durante prolongados períodos de tempo, a contrariedades, a stress e a grandes pressões, seja de ordem pessoal seja profissional, podem perder capacidade orgânica de produzir esse hormônio. O corpo pode desistir! … Ao usar e abusar da nossa química, esgotamos as reservas e podemos levar a nossa fábrica de “hormonios da felicidade” à falência, e consequentemente perder a “vontade de viver” ! É preciso estar atentos aos sinais, tudo pode ser recuperado. Mulheres em fase da menopausa, com todas as alterações hormonais podem perder MOMENTANEAMENTE a vontade de viver… É preciso investigar as razões e encontrar formas de a repor e esperar… Ela VOLTA!
A minha “Graça” foi embora em novembro passado. E com um triplo negativo que a condenou desde o inicio, foi a pessoa que conheci até hoje com maior produção de “Hormonios da felicidade” uma fonte inesgotável de bem estar. E mesmo às portas da morte dizia: ” Já disse à minha -Doutorinha- não estou assim tão mal, ela que venha quando quiser, como vem a qualquer um, mas enquanto vem e não vem eu vivo e faço questão em viver!”
A minha sogra está internada, cheia de vontade de viver, no entanto, o coração está fraco … Quando lhe disse que ía vê-la disse -me :”Vem mais tarde assim podes ficar mais tempo!”, é a vontade de viver a falar… Nas visitas que lhe faço, temos viajado ao passado, limpamos crenças, libertamos mágoas, encontramos em conjunto novas visões e até explicações para questões para as quais nunca tinha encontrado sentido, fica mais leve… Quer continuar a viver e faz tudo para tentar libertar o seu fraco coração de peso desnecessário e isto é a “vontade de viver” a falar…
Perder a “Vontade de Viver” é possível. Segundo os dados e projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS), e de relatórios como: Plano de Accçao Global para a Saúde Mental 2013-2030 . World Mental Health (2022) e Suicide WorldWide (2019), a evolução da depressão e do suicídio no mundo apresenta uma tendência alarmante. Os dados mais recentes apontam a depressão como uma das principais causas de incapacidade em todo o mundo , actualmente , afetando mais de 280 milhões de pessoas. Prevê-se que em 2030 a depressão seja a principal causa de carga global de doença, ultrapassando doenças como o cancro e doenças cardiovasculares.Segundo os mesmo relatatórios mais de 700.000 pessoas morrem por suicídio a cada ano.A OMS alerta que cada suicídio corresponde a mais de 20 tentativas, o que revela uma dimensão ainda mais ampla do sofrimento psicológico.
Vivemos tempos dificeis e precisamos estar bem com o que somos, precisamos limpar terreno, de nos reconciliar com as nossas escolhas, com o nosso caminho, saber de onde viemos e não julgar todos os que vieram antes de nós…
Há quem lhe chame “terapia”, “aconselhamento”, “Orientação” , seja como fôr e o que fôr, é urgente criar uma nova ideia sobre o que somos, é urgente que cada um crie um espaço para olhar para si , saber mais, sobre as suas escolhas, decisões, direcções… Precisamos aprender a falar de nós, a observar, a entender … Para que cada fase da nossa vida encerre em paz e nos permita seguir em frente apenas como a sabedoria…sem peso, sem mágoas, sem tudo por resolver… Acredito que este é o verdadeiro caminho para nunca perder a “vontade de viver”…

