Há sempre um sentido em tudo e para tudo o que fazemos…
Quando falo das minhas duas áreas de actuaçao : A orientação Sistémica (pessoal e profissional) e a Produção de espectaculos, poucos conseguem encontrar similaridades e muitos perguntam sobre a relação entre uma coisa e outra!… Confesso que também, até pela minha mania de ser coerente, demorei algum tempo a encontrar o motivo pelo qual coexistem dentro de mim, praticamente desde que me conheço profissionalmente.
De inicio acreditava que ainda que diferentes e sem ligação eu precisava de ambas. No meio artístico era comum ouvir que a produção artistica é um “bichinho” que se instala e não nos larga. Uma outra evidência é que eu gosto de pessoas e da arte de representar, também desde que me conheço. Mais tarde, continuando na busca por coerência, atribui à produção o papel de “mecenas”, ou seja: o que me permitiu ter disponibilidade financeira e capacidade de investimento em formações constantes, melhorando assim, o meu desempenho nas sessões de orientação.
A certa altura, durante os espectáculos, talvez por andar em busca de sentido, dei por mim a observar a entrada do publico nas salas. As pessoas chegavam sérias sentavam-se com os seus pares, tentando sempre não tocar nos estranhos que ficavam imediatamente à sua esquerda ou à direita.
No fim da actuação o publico mudava, rompia em aplausos e assobios de satisfação. Comecei a reparar no quanto as expressões de cada um mudava, em pouco mais de hora e meia. O publico que chegava carrancudo, estava agora descontraído, sorria, assobiava, agradecia as gargalhadas.
A energia densa do inicio, era transmutada, a sala ficava muito mais leve, cheia de sorrisos e euforia partilhada. Percebi, que produzia algo que fazia muito bem às pessoas. Investi num projecto que transformava energia densa em energia leve, através de arte de representar, da musica, do humor equilibrado. Tudo protagonizado por excelentes músicos e um actor, que gosta das pessoas como eu gosto.
Este episódio fez-me olhar para o resultado do meu trabalho em produção com o mesmo olhar nas sessões de orientação : as pessoas chegam tensas e, ao longo da sessão encontram um lugar de conforto, as feições rigidas descontraem, e saem sempre mais leves!
E sobre a coerência entre dois mundos, chegam novas revelações….
Hoje uma amiga psicóloga, afirmava-se esgotada e dizia “Estou farta de dramas! é traumas por todo o lado”. Foi a frase dela que me levou a este texto, quando lhe disse “Precisas de encontrar algo que te retire desse campo energético no qual a profissão te obriga a viver diáriamente, algo que te ajude a limpar terreno!”… Ao dizer-lhe isto, escutei-me e fez-se luz!
Passo a explicar.
Diversas profissões como ; Policias, bombeiros, enfermeiros, psicologos, médicos, assistentes sociais, trabalhadores sociais, psicoterapeutas, auxiliares de saúde e outros, obrigam a um contacto constante com o que há de mais negro e sombrio nas nossas vidas. Existem profissões onde o contacto com a tristeza, medo, raiva, ansiedade e o sofrimento é constante. Ainda que se salve, que se resolva, que se ajude a dar a volta, a ligação a emoções de baixa frequência é sempre o primeiro contacto…
Hoje percebo que naturalmente, tenho esse “algo”, que propunha à minha amiga . A produção, o trabalho com humor, proporcionou-me um desligar automático e a limpeza de emoções de baixa frequência a que me exponho nas sessões de orientação.
E mais do que coerência entre estes meus dois mundos, encontro utilidade para a minha saúde fisica e psíquica, encontro uma simbiose perfeita para que ambos funcionem em perfeita harmonia.
Levo também para cada espectaculo a amorosidade, a compaixão e o respeito, SEI que cada um faz o seu melhor, tenho sempre tempo, damos sempre tempo.
Os meus opostos revelaram-se, assim, o meu maior ponto de equilibrio! O espectaculo não só me obriga a muitas responsabilidades estruturais e bem objectivas; desde a venda, á pré-produção , pagamentos e gestão de projecto como ainda me permite conviver com uma equipa que brinca com tudo, com um humorista que está sempre a testar o nosso riso, para levar a palco. Em equipa rimos do que tem piada e do que não tem… e através do riso melhoramos-nos e conhecemos-nos uns aos outros. E rir é sem duvida uma das melhores terapias…
Talvez o mundo do espectáculo me tenha chamado para me proteger da dendidade da vida. Na verdade entre o backstage e o palco não existe nada. Em produção o mundo lá fora desaparece e estamos ali e só ali, exactamente no presente, no momento ali e agora…
E assim sigo leve e em missão … para que cada um dos meus mundo me vá revelando as razões de habitar em mim!
Que cada um de nós de divirta nesta busca de sentido das nossas aparentes incoerências!

