Dia 11 de Novembro fechei um capitulo académico no ISCTE, departamento de Sociologia, na àrea da Educação.
Quando em 2022 disse a um colega do meu filho que estava de volta à universidade, ele respondeu-me de forma pragmática e sem qualquer filtro: ” Mestrado tia ? Tão velha ?”
A posição de um jovem de 22 anos, face ao meu ingresso com 52 anos num mestrado académico gerou-lhe estranheza. Uma estranheza educativa e que se estende a uma consciência colectiva e a uma crença maior: ” Existe uma idade para aprender !”
O Afonso não sabia, mas este era exactamente o motivo, em duas frentes que me levava a um mestrado em Educação e Sociedade. Numa primeira abordagem a necessidade de nos actualizarmos e a importancia da aprendizagem ao longo da vida e nos preparramos para um mundo em constante evolução e numa segunda abordagem a importancia da educação sócioemocional desde o berço, exactamente pelos mesmos motivos.
Em 1998, quando cessei as minhas funções enquanto técnica superior no município de Oeiras, onde desde 1995 desenvolvia um projecto de integração social, saí desiludida com as intenções do gabinete que suportava esse projecto.
Ao longo da minha licenciatura (concluída em 1996), li muitos autores, uns mais académicos do que outros. Entre sociólogos, antropólogos, filósofos e até alguns políticos, foram editados, na segunda metade dos anos 90, livros e documentos visionários, com orientações internacionais sobre a necessidade de olhar para o sujeito como um todo: cultura, religião, história, oportunidades, desigualdades.
Este olhar sistémico foi o que sempre me fez sentido. Andei sempre em busca de autores, chegando a ir propositadamente a Madrid comprar livros que me ajudassem a criar projectos.
Foi com esta perspectiva sistémica que, aos 24 anos, iniciei o meu trabalho social, com um projecto pessoal integrado num gabinete que geria a integração social nos novos bairros sociais, então recentemente construídos, que realojavam famílias vindas dos extintos bairros de barracas da periferia.
Cedo percebi que todas aquelas orientações pertenciam a uma elite de pensadores; à primeira dificuldade, as chefias abortavam os projectos, retiravam confiança aos técnicos de acção social e julgavam as comunidades sem qualquer olhar sistémico. Não quis fazer parte disso!
Em 2007 voltei à academia e, em 2014, enveredei por novos cursos, pós-graduações académicas e profissionais, e formação avançada em universidades. Tudo em nome do olhar sistémico, tudo em prol de ligar tudo, porque tudo está ligado. É importante isolar para estudar, mas os resultados só podem ser verdadeiramente válidos quando encaixam no todo, sem o prejudicar.
Fui percebendo que surgiam novas ferramentas, novos estudos ganhavam força na área do pensamento sistémico, antigos estudos eram validados, ferramentas outrora desvalorizadas ganhavam terreno. Percebi que, se tivesse parado no tempo, teria perdido a oportunidade de aprender que, antes de olhar para o outro de forma sistémica, precisamos de olhar para nós!
E não, Afonso, a tia não é velha, nem tu alguma vez serás velho para aprender…
Passados quase 30 anos, voltei à academia, desta vez para um mestrado em Educação e Sociedade, com o objectivo de estudar os caminhos da educação. De forma espontânea, fui trabalhando temas que, de uma forma ou de outra, caíam na Educação Socioemocional (ESE). Entre documentos actuais (2015-2025) e orientações da OMS, da OCDE e da UNESCO, fui percebendo que continua a ser urgente, social, económica, politicamente e para a saúde pública, que a ESE seja posta em prática. Ou seja, aquilo que documentos editados há mais de três décadas já propunham mantém-se actual, ajustando, obviamente, a uma nova realidade e a novos desafios produzidos pela tecnologia e pelos novos comportamentos sociais inerentes a toda esta evolução.
Infelizmente, cheguei a tempo, e o tema, em 2024, está mais actual do que nunca: a integração da Educação Socioemocional no currículo – perspectivas e práticas de professores do ensino secundário.
A todos os Afonsos, que acham existir idade para aprender, ainda bem que continuei a estudar, ainda bem que existem pessoas que investigam e outros que as leem. A mudança colectiva só pode verdadeiramente acontecer quando cada um sabe que tem um papel determinante na sociedade, que a capacidade de aprender não se esgota aos 24 anos e que só reconhecendo e estudando o mundo em que vivemos podemos agir activamente em prol de um mundo melhor.
A vida depois da escolaridade obrigatória não pode ser apenas empreender, ganhar dinheiro e somar promoções profissionais. Por outro lado, a vida até à escolaridade obrigatória não deve, igualmente, ser apenas estudar matemática, inglês, física, biologia, filosofia, etc e avaliar conteúdos. Devemos, desde cedo, aprender quem somos, porque somos, a importância da paz, da tolerância e da cooperação, assim como a importância da aprendizagem ao longo da vida. Sem esta integração e cruzamento de saberes académicos, sociais e emocionais, corremos o risco de tudo o que conquistarmos se tornar obsoleto e deslocado das reais necessidades para tornar o mundo melhor para todos.
É aqui que a Educação Socioemocional faz toda a diferença: lembra-nos que não somos apenas notas, currículos ou cargos, somos pessoas em relação com outras pessoas.
Estudar não é um capítulo da vida, é um caminho de sobrevivencia à evolução dos tempos.
E, enquanto continuarmos dispostos a aprender e a cuidar uns dos outros, haverá sempre esperança de construir uma sociedade mais justa, mais consciente e verdadeiramente humana.
Nota:
Atendendo a que não existe uma definição única e consensual de Educação Socioemocional, neste trabalho a ESE é entendida (de acordo com documentos da OCDE) como a promoção de ambientes escolares e de práticas pedagógicas que favoreçam o desenvolvimento de competências necessárias para gerir emoções, conhecer-se a si próprio, relacionar-se com os outros, ultrapassar obstáculos, definir e atingir objetivos, cooperar, confiar, demonstrar empatia, exercer autocontrolo, assumir responsabilidade e mobilizar o pensamento crítico e criativo.

