É muito comum em sessões de terapia Transgeracional perante a observação ao sistema familiar, surgirem revelações sobre comportamentos dirigidos às mulheres da familia, que podemos, nos dias de hoje, considerar como atrocidades. As revelações surgem quer por quem experiênciou (avós, filhas), quer por quem escutou das ancestrais ainda vivas (filhos, netos). Os comportamentos referem; dominio absoluto do homem sobre a mulher, aceitação absoluta desss dominio, envolvendo violações, obrigatoriedade de servir e aceitar todas as escolhas, do homem, em silêncio e com satisfação. Sem direito a qualquer tipo de contestação. Ainda que alguns colocassem em risco a sua integridade fisica e psiquica.
E não julgue o leitor que estas histórias tem séculos! São revelações de um passado recente, têm entre cinco e nove décadas no máximo, ou seja datam de 1930, 1940, 1950, 1960, 1970! Não se trata de antiguidade ou pré história é algo contado ainda na primeira pessoa!
É interessante observar que essas partilhas começam a ser passadas em modo automático, um “relato” que já foi repetido vezes sem conta e normalizado e muitas vezes surge de passagem, para justificar um “feitio” ou comportamento sendo acompanhado de observações como: a avó era má para a mãe, ou uma mulher amarga, silenciosa, pouco emocional, feliz com os netos mas conflituosa com os filhos!
Estes momentos surgem espontaneamente, mas entendo que nunca por acaso. Talvez sejam as mulheres do sistema a quererem ser vistas talvez a desejar que esse relato, seja observado numa outra perspectiva. Na verdade, tudo muda quando “desligamos o automatico” e escutamos activamente.
E é através desta observação e escuta activa que surgem as questões; de como seria viver assim ? Será possível a colocar-se no lugar dessa mulher; abusada, impedida de evoluir, presa, obrigada a casar com quem não quer, a servir sexualmente o marido, a aceitar traições e agressões fisicas como se isso fosse normal (?) consegue imaginar não ter mão na sua vida por ter nascido mulher ?! acha que essas mulheres nunca questionaram ? nunca se enraiveceram ? eram mesmo submisssas ? ou apenas tentavam sobreviver, dia após dia ?
Ora atentemos aos relatos para ver o que sentimos nos dias de hoje ?
“O meu avô batia na minha avó, até nascer o quinto filho bateu sempre!”
“O meu avô obrigou a minha mãe a casar com um primo com problemas cognitivos, porque prometeu isso ao meu tio (irmão dele)”
“A minha mãe abortou depois de ter levado um pontapé do meu avô, e ele ainda lhe disse que a culpa foi dela porque o irritou ?”
“A minha mãe descobriu durante a gravidez que o meu pai a traira com a empregada e ficaram as duas grávidas ao mesmo tempo, quis abortar mas ele não deixou, ela passou a gravidez toda a chorar !”
“Ele era muito mau para ela, chegava a casa bêbado e acordava-a para lhe lavar os pés e violou-a diversas vezes”
“O meu avô culpou toda a vida a minha avó por terem tido um filho deficiente, dizia-lhe que o corpo dela não prestava e por isso tinha outra mulher!”
” O meu pai teve uma familia paralela à nossa, a minha mãe quando descobriu ficou tão desgostosa que acabou por morrer… O meu pai negou até ao fim e quando ela morreu dizia à boca cheia que tinha com a outra o que não tinha com ela!”
“A minha avó educou a minha mãe sob a crença de que se não desse sexo ao marido ele ia procurar fora!”
“A minha avó foi traída, pelo marido com a amiga e com a irmã, passou a vida sem sair de casa com vergonha”
” O meu avô nunca deixou a minha avó ir trabalhar !”
” A minha avó sempre disse que se a mulher apanhava do marido era por ser rebelde !”
” Quando o meu marido me traiu a minha avó disse-me que não me importasse que ele chegava a casa tomava banho e ficava como novo !”
” A minha avó ficou gravida do Padre, e na terra quase foi crucificada, as mulheres juntaram-se todas contra ela, defendendo o Padre!… A minha bisavó mandou-a para uma casa em Lisboa servir depois do bébé nascer e entregaram o bébé, ela nunca mais viu o filho!”
“A minha mãe engravidou com 17 anos e todos os amigos a rejeitaram, os pais proibiam os filhos de falar com ela e os meus avós fecharam-na em casa até ter o bébé!”
” O meu avô foi para a guerra e deixou a mãe dele com a minha avó para lhe fechar e abrir as portas todos os dias, para que nenhum homem se aproximasse!”
“O meu avô levava mulheres para dentro do quarto enquanto a minha avó estava na cozinha a fazer as refeições. Dizia que era uma necessidade dele!”
“Pensei que a minha mãe me tinha abandonado ao deixar-me com a minha tia a partir dos 4 anos, passados alguns anos vim a saber que o meu pai violou a minha mãe toda a vida, e que lhe dizia que a seguir a ela seria eu quando tivesse 8 anos. Ela confessou me que lhe custou muito, mas foi a forma de me salvar… Nunca contou nada a ninguém por Vergonha e porque foi educada a que tinha de DAR SERVENTIA ao homem”
“O meu avô bebia muito, não falava, dormia com uma espingarda na cabeceira da cama e estava sempre a dizer que um dia era dia, se ela não fizesse o que ele queria!”
” Filha faz a tua vida, cria o teu filho sozinha, os homens não respeitam e vai ser dificil que começem a respeitar as mulheres… no meu tempo estavam numa posição privilegiada pela politica, pela religião e pela organização social. Detinham o poder financeiro e a força de trabalho e a função de defender a pátria. Mas se olhare para o mundo neste momento, a função deles está indefinida, vocês mulheres, ganham como eles ganham, estudam mais do que eles, buscam mais conhecimento, conduzem, criam os filhos sozinhas, tomam conta da casa… E eles ? o que fazem que os diferencie para lhes continuarmos a dar poder ? Que motivos tem agora para nos tentar aprisionar a eles e fazer-nos sentir culpadas por existir ? Eles estão a reinvidicar um poder para um mundo que já não existe… Não há volta a dar eles largaram todas as suas funçoes… As mulheres não vão voltar a ser o que foram… Por muito que tentem não vão conseguir… “Este foi o conselho de uma avó, a uma neta poucos dias antes da sua morte.
Sobre estes relatos surgem algumas questões, do porquê este tratamento ? Precisam mesmo de mais de sexo que as mulheres ? O papel do alcool na vida do homem é uma necessidade intrínseca ? Foi o facto de serem a base do sustento da familia que os empoderou durante décadas ? como se justifica uso da força fisica perante as mulheres ? Porquê a necessidade de dominar a mulher ?
Entendo que todas estas necessidades do masculino, foram alimentadas e criadas pelo ambiente social, cultural, religioso, politico e até económico, durante séculos, até às ultimas décadas do século XX. O que levou a que muitas se manifestassem como necessidades biológicas, logo a ser atendidas para a sua saudável sobrevivência! E obviamente esta modelação atingiu também as mulheres, a maioria acreditou que era mesmo assim, e assim a se renderam ao dominio masculino. No entanto novos tempos surgiram, trazendo à superfície relatos cheios de mágoa, sofrimento e até arrependimento por não terem percebido, que nunca deveria ter sido assim :
As crenças sociais e culturais que conferiram o dominio masculino são diversas e em diversas frentes:
-Das crenças escritas, por homens, nos textos sagrados, a apologia ao sexo forte e ao sexo fraco pela organização social. A igreja que coloca as mulheres/freiras como esposas de deus sem lugar de destaque,
-A intuição feminina ligada à bruxaria e ao descontrole. A sensibilidade feminina ligada à vulnerabilidade e à emoção que oferece perigo perante o inimigo.
-O alcool ligado à masculinidade e ao controle, e a consequente permissibilidade e a escusa por todas as alterações provocadas pelo consumo,
-A apologia á virilidade como moeda forte entre machos, a constante alimentação pela quimica e pelo desejo sexual. O sexo associado à força e ao dominio…
-A mulher enquanto propriedade do pai das familias e posteriormente do marido, A mulher objecto social que podem comprar e subjugar!
Estes são apenas alguns dos factores ambientais que construiram os homens que viveram com as nossas ancestrais, cuja herança sistémica é agora manifesta nos seus descendentes, através de zangas, de duvidas sobre o seu papel na sociedade e nas relações, na rejeição dos padrões por uns, na recuperação do padrões por outros, e criando talvez uma revolução na forma como olhamos para a sexualidade e para as relações. Estamos perante uma nova realidade social, e as lealdades aos sistemas anteriores persistem e manifestam-se por vezes de forma antagónica: tanto assistimos a mulheres a querer honrar as suas ancestrais avançando com força para uma nova realidade onde dominam as suas vidas e rejeitam o dominio masculino como assistimos a jovens leais às suas ancestrais a repetir os padrões de submissão e primazia do homem sobre a mulher. Do lado masculino, o processo antagónico é semelhante, homens que rejeitam o masculino dominante por não quererem repetir as atrocidades dos seus ancestrais e outros em lealdade inconsciente, aos ancestrais, lutam por manter o padrão de dominio sobre o feminino, querendo voltar para uma sociedade que já não existe…
Estamos num tempo de mudança , mudança de funções , mudança de poder, mudança de acção social e cultural e isso vai obviamente modelar as relações e o papel do homem e da mulher na sociedade. A homossexualidade masculina e feminina, os transgenero, os furries e outras manifestaçoes de género, são provavelmente, fruto do grande desiquilibrio social criado por uma ordem que se julgou intocável durante séculos, mas frágil como qualquer ordem sem critérios justos e honestos e imposta pela força e pelo medo.
Ao olharmos para os relatos de sofrimento das mulheres abusadas, ignoradas, violadas e maltratadas pelos pais dos seus filhos durante séculos até há muito poucos anos, conseguimos perceber que este foi um dominio pensado e desenhado intencionalmente, que muitas mulheres aceitaram para sobreviver mas sempre em sofrimento. Que não existe sentido nenhum para este comportamento, que nenhuma mulher é merecedora deste tratamento, que tudo o que travou a evolução e a acção dessas mulheres foram crenças, leis e padrões de comportamento sociais e culturais desenhados pelas sociedades patriarcais com o intuito de as travar e convencer de ser menos do que são !
Uma ordem que demorou a cair, mas vai tendo os dias contados, ainda que muitos queiram correr atrás dela. As mulheres carregam os filhos dentro, dão o corpo para criar novo corpos e mentes , do corpo delas sairam todos os homens … Que sentido maltratar o lugar de onde viemos ? Quanta ingratidão foi praticada às mulheres durante séculos ? Que ordem foi esta ? Onde estavamos todos com a nossa consciência ?!

