A Arte de Ir Indo Embora

Nunca gostei de despedidas sofridas ,  seja qual for o destino, cada um deve seguir o seu caminho livre de amarras e  ligações ao sofrimento…  Gosto de despedidas olhos nos olhos!

Sempre gostei de despedidas com fé no caminho e no sentido de vida de cada um. Estamos cá para viver e nesta aventura, chegamos e partimos de muitos locais, uns fazem viagens mais longas, há quem faça mais viagens, mas todos nós fazemos as nossas partidas e chegadas.

Vejo a morte como mais uma viagem. Hoje morreu um amigo. Há precisamente duas semanas, após uma longa luta,  informou-nos através do facebook que estaria quase a ir embora, manifestou-se feliz por ter cá passado, agradeceu e disse que gostaria que ficassemos com ele no coração com a mesma felicidade que ele nos levava no seu para uma outra dimensão …Respondi ao Zé Zambujal , agradecendo-lhe oportunidade que me deu, de lhe poder dizer o que  aprendi com os monges quando a morte chegasse,  ” olha para cima, olha sempre em direcção ao céu, ficarás sempre no meu coração , AMO-TE” …

Este homem permitiu-me sem rodeios e esperanças falsas, ir ao encontro da sua despedida e da sua intuição, permitiu-me fazer-lhe companhia com palavras, dar-lhe dicas sobre o que aprendi com os monges budistas e sobre algumas experiencias que já vivi em processos de fim. Permitiu-me também agradecer-lhe , pelo grande exemplo e mestria na arte de ir indo embora de coração apaziguado, deixando igualmente apaziguados, os corações dos que ficam

Há muito que sinto que é fundamental desmistificar a morte, em prol da nossa saude mental,  integrá-la serenamente na nossa realidade, viver dia a dia como se fosse o ultimo e o primeiro dia de vida.

Precisamos de aprender a viver tranquilos com o nosso fim, confiar que é sempre no momento certo.  Viver em paz, gratos e despreocupados com o fim,  enquanto por cá andamos, apazigua o coração de todos os que nos rodeiam.

Se todos morressemos em paz , deixariam de existir almas penadas, apegadas , distorcidas, Se todos morressemos assim não ficaria tanta raiva no mundo, tanta divida por pagar, tanta vingança por fazer,  sentimentos de culpa e de injustiça. 

E não devemos ficar tristes ?

Claro que ficamos, não é uma festa perder alguém.  Embora relatos de quase morte falem do fim como algo soberbo. Inevitavelmente correm-nos as lagrimas ligadas às perdas,  surgem as memórias, os sorrisos e as saudades.

E quando é uma morte é repentina ?

Diz-se que nunca estamos preparados para o fim … mesmo quando é anunciado!  É uma questão cultural. Talvez por fugirmos tanto deste tema, a morte seja sempre inesperada e as mortes repentinas provocam grandes stress traumáticos.

Re-educar para a o fim do caminho, ou para a morte,  faz parte de um novo processo de re educação emocional. Um processo que convida a observar o fenómeno da vida e da morte com outros olhos e ensina a reagir às perdas através de um novo entendimento.  Muitas pessoas vivem aterrorizadas com a ideia de morrer e de perder, e passam a vida apegadas a esse medo, sem viver plenamente.

Entender a morte é deixar de chorar os nossos ?

Claro que não… é inevitável chorar, não conseguimos prender as lágrimas quando é cortada a ligação fisica aos que amamos… chorar faz parte, liberta e alivia as emoçoes de tristeza que sentimos por dentro.  No entanto existem diferentes formas de chorar:   Há o choro que esperneia /berra / nega /desmaia e o choro triste/saudoso/meditativo/grato , tudo depende da forma como aceitamos o FIM e também da forma como esse fim nos chega.

Entender a morte , ou o fim do caminho é perceber que não existe um tempo linear para viver a vida, podemos morrer, crianças , jovens, adultos e velhos. Muito embora surjam os conceitos de tempo e de ordem cronológica cada um de nós tem uma missão na terra, que não é contada em dias e horas. Nesta realidade ninguem é novo demais, ninguem parte antes do tempo, ninguem merece ou não merece morrer,  todos partem quando tiverem de partir, além disso também o corpo em que habitamos dita as suas vontades, mediante algumas escolhas que fomos fazendo ou a sua própia validade.

Re educar emocionalmente para a morte:

  • É permitir viver o fim, sem medo, sem trauma, sem panico.
  • É ser grato à presença dos que partem da nossa vida,
  • É entender que as missões de cada um neste plano, terminam em tempos diferentes,
  • É trocar as lagrimas de dor, de medo e desespero, por lagrimas  de tristeza,  de saudade,  gratidão e  de luz.
  • É encontrar um sentido maior para o fim de cada um e aceitar que não sabemos tudo
  • É falar de alma eterna, de corpo terrestre e missão
  • É falar sobre ser a nossa melhor versão enquanto respiramos num corpo, em prol da continuidade e evolução da nossa alma neste grande movimento continuo, da vida e da morte.
  • É falar do regresso à fonte e do regresso à terra…

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