Tenho percebido em diversas conversas com jovens, que são muito comuns os conflitos e desconforto em relacionamentos de amizade. Este desconforto gera algum sofrimento e frustração, principalmente quando não conseguem identificar, a origem do problema ou a razão da ruptura. Obviamente que não é uma questão meramente juvenil, mas sim de todos nós: os relacionamentos são o nosso maior desafio.
Quando estamos perante um conflito é muito importante saber a razão e a motivação que lhe deu origem, só assim o poderemos resolver, assumir novas posições ou desmanchar equívocos e para isso é importante que o canal de comunicação se mantenha, por isso há muito que se diz ” que a falar é que agente se entende”, (perdoem me o “agente”).
No entanto parece que nesta arte dos relacionamentos, pratica-se exactamente o oposto, fecham-se os canais de comunicação, silenciam-se motivações, parece que fazer rupturas é agora ainda mais fácil; bloqueiam -se os números de telefone, removem-se amizades das redes sociais, apagam-se fotos, enviam-se recados em frases feitas e ambas as partes aceitam essa decisão. Será que aceitam mesmo ? A má noticia é que esta remoção ou bloqueio, não apaga o sofrimento provocado por uma ruptura com uma amizade em que se acreditou. A boa noticia é que se esse sofrimento acontece, porque o nosso coração está a funcionar bem.
A arte de nos relacionarmos deveria ser aprendida na escola, desde a primeira infância, com alguns passos fundamentais, quando algo nos magoa ou inquieta num relacionamento:
1º- Aprender a identificar se o “desconforto” que o outro nos fez sentir; partiu dele impulsivamente sem qualquer razão que tenhamos consciência ? é fruto da minha interpretação e vivência? criei eu uma ideia diferente do que ele é ? ou terei dado algum motivo ?
2º- Aceitar o comportamento do outro e o que me fez sentir. Acreditar que este mau estar, tem de trazer algo para o crescimento da relação e da minha forma de me relacionar.
3º- Confrontar, questionar, querer saber o que se passou. Ir atrás, não ter medo de manifestar o que se sentiu, por muito “errado” que se possa estar, se senti há um motivo , mesmo que seja só meu. Fugir só vai fazer com que a história se repita mais à frente em outro relacionamento.
Quando tentamos perceber o conflito, com estes passos ou outros que façam mais sentido, saímos de dentro do conflito e começamos a olhar para os factos de forma mais lúcida.
E por vezes é fácil identificar maus momentos dentro das amizades, que tem origem numa situação que não tem nada a ver com o relacionamento: crenças culturais e familiares, frustrações, medos , traumas de infância, inseguranças e questões emocionais internas, uma irritação hormonal. Quanta vezes já pensaram: “pois o prof vem chateado com a mulher e nós é que pagamos!”. Nas relações de amizade este tipo de projecção também acontece. Para perceber os motivos é exactamente como os nossos sábios avós diziam ” a falar é que a gente se entende” (desculpem outra vez o “agente”).
Do coração vem a sugestão; observem-se, falem, conversem , não virem costas, não ignorem. Quando conseguimos superar ou simplesmente entender um conflito saímos mais tranquilos, mais plenos, mais aliviados , com relações mais fortes e mais sólidas connosco e com os outros. A compreensão e o auto conhecimento de como nos movimentamos com o outro é o caminho para a paz nos relacionamentos. Por muito que se tente resolver, bloqueando ou removendo… é importante saber que no nosso coração não existem essas opções... e é por isso sofremos! O nosso coração quer respostas com sentido.
