Detesto Ser Chamado à Atenção

Em sessões de Orientação Sistêmica o desconforto de ” Ser Chamado à Atençao” surge muitas vezes ligado às relações profissionais, académicas e até pessoais.

Em abril de 2018 quando abri este blog, foi um dos primeiros temas abordados, focado numa jovem adolescente. O tempo foi me mostrando que este é um tema transversal.

Há uma resistência enorme às chamadas de atenção, quanto mais “adultos” maior a preocupação. Aprendemos a ser competentes a ter brio profissional e por vezes o principal foco é não deixar que ninguém nos aponte nenhuma “falha”. Uma preocupação e uma pressão constante que fazemos sobre nós mesmos…

Gostar de agradar ao outro faz parte da nossa natureza relacional,no entanto o sentimento de ter de ser “aprovado” pelo outro chega a ser emocionalmente disfuncional. E é quando atinge niveis disfuncionais que “ser chamado à atençao” gera sofrimento “exacerbado”, stress e ansiedade… e o pior é não saber explicar o porquê… de onde vem este QUERER exagerado de ser perfeito, competente , infalível.

SER CHAMADO A ATENÇÃO O Mesmo STRESS , REACÇÕES diferentes

Nem todas as pessoas que me procuram com este tema, reagem da mesma forma às chamadas de atenção. Mas mesmo com reações diferentes todas me revelam que ser chamado à atenção “manifesta-se” num grande desconforto interno.

Algumas das frases que tenho ouvido :

“Sinto-me um estupido e passo o resto do dia a molestar me por não ter percebido”

“sinto-me envergonhada, como se tivesse decepcionado o meu professor”

“Sinto uma revolta tão grande que acho que a pessoa está a fazer de propósito para me mandar abaixo, fico amuado!”

“Sinto me frustrado, só me apetece é sair dali, é um dualidade entre raiva por aquela pessoa e a se calhar tambem raiva por mim”

Na escola quanto mais me chamam a atençao pior faço… fico mesmo enraivecida”

É uma humilhação só de pensar que alguem me chama a atençao “

Quais os motivos para a resistência e o sofrimento associado às chamadas de atenção?

Cada um terá diferentes motivos para a resistência exagerada, passa quase sempre por algum episódio durante a infância: sentir ter decepcionado alguém, ou alguém se ter mostrado muito decepcionado com algo que fez, excesso de autoridade dos progenitores, ou de alguem proximo, critica constante, viver num contexto de julgamento constante a tudo exterior, crescer com a tão simples e usual expressão ” Assim não gosto de ti” ou “deixas me triste”, ou falhas castigadas com privação de algo ou agressão fisica excessiva. Estes são apenas alguns dos motivos que tenho identificado, e que podem levar a resistência a “ter feito algo mal” e ser chamado à atenção por isso.

Quando um cliente chega com este tipo de pedido de ajuda, quase sempre faço o seguinte exercicio:

-Sente-se confortavel , endireite as costas e respire fundo.

-Imagine na sua frente a pessoa que lhe chamou a atenção o Chefe /professor/Colega/ Amigo … Fique traquilo, estamos só a fazer um exercicio

-Foque-se no sentimento que lhe causa esta chamada de atenção… não pense em nada mais que essa sensação…

-Continuando de olhos fechados … sinta em que parte do seu corpo está essa sensação de mau estar ( no coração, nos ombros, nas costas, numa perna ?)

-Agora que já localizou essa sensação se tivesse de lhe dar um forma, que forma daria ( triângulo, redondo, rectângulo, oval, hexágono ?) e que peso tem ?

-Já sabendo onde está, a forma e o peso … sinta a cor que tem essa forma ?

-E finalmente com conhecimento da forma, o peso e a cor da sensação provocado por ter sido chamado à atençao , mantendo os olhos fechados, vou lhe pedir que se imagine a retirar essa sensação, da zona do corpo onde a localizou e que num movimento sereno e firme a mande para bem longe.

Este exercicio traz quase sempre um alivio imediato. Mas há mais trabalho a ser feito. Há que encontrar a base do sofrimento: onde significamos que não podemos falhar ? e porque não aceitamos ser chamados á atençao ? E porque nos tornamoso os maiores julgadores de nós próprios?

E quando o medo se relaciona com a forma inapropriada como nos chamam a atenção ? 

Permitir que sejam inapropriados conosco quando nos chamam a atenção revela muito sobre nós, mas também sobre o outro. Há um grande perigo em permitir que nos tratem sem  modos mas também existem motivos pessoais para o permitir.  Existem pessoas muito agressivas na forma de chamar a atenção, uma questão delas que nada tem a ver conosco, mas com as suas qualidades pessoais. E o problema é quando ganhamos medo. Por vezes  aceitamos porque lhe conferimos poder,  por conveniência, porque não damos importância ou porque percebemos que aquela pessoa é impaciente, impulsiva e pouco tolerante. Aceitar os seus modos pode também revelar que somos suficientemente fortes para passar à frente, mas é preciso cautela porque em momentos mais vulneráveis podemos perder essa capacidade, tantas vezes somos tratados sem modos que acabamos por nos habituar e ganhar medo.

Por vezes ter tido uma má experiência com um patrão no inicio da vida profissional, pode ser o gatilho para nos levar a entrar em stress sempre que em futuros empregos nos chamam a atenção.

Qual a melhor orientação para gerir uma situação de stress a “ser chamada a atençao” ?

Imagine que é chamado a atenção pela sua chefe… Se estiver consciente dos seus medos e das suas significações rapidamente consegue alterar a sua resposta emocional.

Por exemplo a Carla percebeu claramente que o grande stress de ser chamada a atenção estava relacionado com o facto da mãe ter sido super exigente com as limpezas. Um simples grão de pó em cima de um armário era o suficiente para mandar retirar as coisas todas de cima do armário e limpar tudo de novo:

“Numa dos raros dias ìa a uma festa com as minhas amigas, antes de sair de casa, a minha mãe detetou uma mancha no chão que eu tinha encerado de manhã e não me deixou sair …despejou um balde de água no chão para eu ir limpar tudo outra vez… fiquei em panico…triste, enraivecida… foi uma injustiça enorme, não fui à festa. Estas atitudes fizeram de mim uma boa dona de casa, mas não era preciso tanto… Agora percebo que também me deixou ansiosa sempre que sou chamada a atenção”

A partir do momento que a Carla identificou o motivo da sua ansiedade, consegue controlar a sua reação quando é chamada a atençao.

” Agora percebo que a minha reacção às chamadas de atenção, eram amplificadas por mim, ficava sem reacção, como se tivesse cometido o maior dos erros. Não me conseguia explicar e o pior é que acabava por também ter dificuldade em compreender rapidamente a melhor forma de não voltar a repetir o erro. Era um bloqueio a toda a minha acçao e reacção à chamada de atenção. “

A pressão sobre a competência, os prémios e o ser “Chamado á atenção”

A Somar aos nossos traumas pessoais e significações sobre ser chamado à atenção há ainda a enorme pressão da competição do mercado de trabalho, o premiar a competencia daqueles que chegam primeiro a qualquer custo. Neste contexto ser chamado à atenção pode significar ficar para trás, tornar-se inutil, ser despromovido ou não ter direito a promoção. Quando estamos num ambiente profissional desta natureza é fundamental aumentar a capacidade de resposta EMOCIONAL quando é chamado à atenção. Esta gestão emocional pode ser determinante para transformar a chamada de atenção num esclarecimento sobre algo que tem de ser melhorado numa proxima vez, poupando-o a sentimentos de vergonha, humilhação, revolta e zanga consigo mesmo.

Esclarecidas as nossas questões , identificada a responsabilidade da forma como somos chamados a atenção, ficamos mais leves e é possivel reconhecer humildemente a nossa falha. A chamada de atenção não passa de um convite a observar a nossa acção …e melhorar. Quando finalmente sentimos este movimento em nós é mais fácil percebe-lo no outro. Ficamos também mais conscientes, sobre o que as nossas chamadas de atençao podem provocar e dar inicio, a uma nova harmonia na forma como convidamos o outro a melhorar.

http://www.orientacaosistemica.pt

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