A Linguagem do CORPO

Hoje trago um assunto pessoal… uma proposta de reflexão sobre o que somos nas nossas diversas formas entre corpo, alma e mente… sendo que hoje é sobre o corpo!

No passado dia 6 de outubro, fui submetida uma intervenção cirúrgica de prevenção. Foi uma opção consciente e ciente de que por vezes temos de dar uma ajudinha ao corpo. Acredito que muitas patologias crónicas, provocadas por condições físicas de desgaste, poderiam ser evitadas com decisões clinicas de prevenção.

Mas o que me levou a este texto não está relacionado com a necessidade de prevenção , mas sim com a linguagem do nosso corpo.

Como disse esta foi uma cirurgia ponderada, em prol da prevenção e de um desgaste que começava a comprometer outras partes. Como em qualquer cirurgia, fui anestesiada, intervencionada e obviamente suturada… E este é sempre um processo de enorme violência para o corpo.

Surge sempre grande inquietação quando nos submetemos a uma cirurgia. Há que entregar o nosso corpo, para que mexam na nossa condição física que tanto prezamos e, mesmo escolhendo os profissionais e os meios, a inquietação aumenta com a proximidade da data.

Nas duas semanas que antecederam a cirurgia, o meu corpo começou a manifestar-se. Ainda que eu tenha feito algum dialogo interno, integrado exercícios na minha rotina diária e acreditasse estar calma, a ansiedade e o aperto no coração surgiam do nada. Uma intranquilidade ou angustia que vinha de fora de mim, talvez de um diálogo do corpo para o corpo e que escapava do meu campo de consciência cognitiva.

Como se existissem reuniões secretas dentro do meu corpo sem a minha presença, como se me estivesse a esconder informação, como se fossemos entidades paralelas…

Esta experiência revelou-me que, se por um lado SEI que corpo, mente e alma estão intimamente ligados, talvez NÃO SEJA menos verdade que cada um dos campos tenha uma zona de actuação autónoma e que neste caso em relação ao corpo, exista mesmo uma linha de comunicação exclusiva do corpo para o corpo.

E que se por um lado sabemos que emoções e acontecimentos se manifestam no corpo, talvez também existam momentos em que há uma dissociação entre corpo, alma e mente e cada um vive os traumas que lhe dizem respeito.

O que é certo é que as manifestações involuntárias, de ansiedade ou inquietação aconteceram muitas vezes nesta última semana e as perguntas surgiam-me:

Teria o meu corpo um medo inato ?

Estaria zangado com a minha escolha ?

Teria algo para me dizer que não entendi ?

Queria que eu mantivesse a condição anterior mesmo que isso trouxesse peso e desconforto e risco para a qualidade de vida futura ?

Estará ele farto das minhas decisões na tentativa de promover uma melhor saude ou qualidade de vida enquanto por aqui passo ?

Terá ele uma consciência própria ?

Eu sei que esta é uma abordagem estranha, mas foi assim a reflexão que surgiu.

Se por um lado sei que as nossas vivências (eventos traumáticos e desafios emocionais) podem ficar marcados em zonas do nosso corpo e provocar doenças físicas, não menos verdade deve ser que o corpo tenha uma secção apenas dedicada aos traumas físicos associados ao corte, à ferida, à dor física e à intrusão.

Será que durante a anestesia é apenas a nossa consciência que fica desligada do corpo não nos permitindo sentir dor, e que o desgraçado do corpo, fica ali a sentir tudo sozinho ?

Se assim for é injusto e sinceramente, não gosto muito da ideia de o abandonar á sua sorte, enquanto a minha consciência desfruta de uma boa “moca”.

E se for verdade que perante uma anestesia, corpo fica mesmo à sua sorte ?

O que me aconteceu nas horas seguintes poderia constituir prova disso:

Quando acordei, o anestesista quis saber como estava e perguntou-me se tinha sonhado com algo.

“Não sonhei com nada, julgo ter ficado profundamente inconsciente, em coma induzido, sem qualquer conexão ao que se passava no bloco” respondi.

Provavelmente saí mesmo do meu corpo, para que os profissionais se encarregassem de fazer o que tinham de fazer. Talvez tenha sido egoísmo mas na verdade saí dali…nem sonhos, nem montanhas, anjos, unicórnios, gnomos, ondas ou praias paradisíacas… Ausentei-me, deixei ali o meu corpo e ponto!…

Nas 12 horas seguintes o corpo começou a manifestar-se face ao que tinha acontecido… e foram essas manifestações que deram origem a este texto, na realidade é aqui que começa a ser montado o puzzle.

Cheguei a casa ainda com a dita “moca” da anestesia, jantei uma coisa leve e fui descansar. Durante a noite despertei de duas em duas horas e a cada despertar surgiu um “flashback” de um evento traumático que o meu corpo sofreu na infância:

-Uma porta de madeira na cabeça ! (3 anos)

-A mãos coladas com fita cola (ano e meio)

-A queda de um beliche (2 anos)

-O Afogamento (2 anos e meio)

-Uma intoxicação com Pó Talco (ano)

Foi uma noite a reviver eventos traumáticos fisicos de uma primeira infância, seria impossível de os ter na minha memória … as quedas de costas , a água na garganta a impressão do pó, De onde vieram ?

Sinceramente não sei e a única explicação que encontro é a de que foi o meu corpo a reviver todos os seus traumas físicos, como se aquilo que aconteceu na sala de operações neste dia 6 de outubro de 2022, os tivesse reanimado.

É muito comum, quando um evento traumático acontece nas nossas vidas, despertar todos os que estão adormecidos, amplificando os medos e o estado de alerta.

Mas o que aconteceu aqui foi para além disso. Eu não tinha memória declarada destes acontecimentos, sei que aconteceram, através de relatos dos meus pais, mas não tinha registo nem nunca tinha acedido a imagens tão claras dos embates e das sensações físicas de dor… estaria a ficar maluca ? estaria ainda sob efeito da anestesia ? ou estaria a assistir aos medos do meu corpo durante a cirurgia ?

Quando acordei tentei de forma “lucida” perceber o que se tinha passado durante a noite e ao longo do dia fui observando e… percebi que a minha reacção a tudo o que acontecia à minha volta, estava diferente, o meu estado de alerta estava amplificado. A corrida dos gatos pela casa, um som mais brusco, alguém a falar mais alto, o barulho da bimby…

Ao jantar o meu filho em jeito de brincadeira desvalorizava os sucessos do dia da irmã e de forma impulsiva e reactiva zanguei-me … como se ele a estivesse a agredir… e foi aí que percebi que algo não estava a fazer sentido… ele estava a brincar e eu estava a levar como uma agressão e a reagir em alerta…

Estava a transportar para o relacionamento familiar os medos que o meu corpo me transmitiu durante a noite e ao longo do dia… E se deixasse que as duas realidades se diluissem, deitaria por terra tudo o que tinha percebido…

Afinal o meu corpo tinha revelado o maior de todos os segredos: ele tem uma percepção para além da minha consciência, a dor dele pode ser dissociada da mente e dos comportamentos… Ele é capaz de viver a dor pela dor, como uma criança que cai de um beliche ao ano e meio, só lhe fica a dor e a sensação de queda…

No caso concreto desta cirurgia, a dor que ele sentiu tem um propósito na minha consciência , é para que ambos caminhemos em maior segurança, prevenindo, poupando desgaste a outros orgãos e recuperando vitalidade.

É certo que foi ele quem esteve naquele bloco enquanto eu “fingia que morria”… e por isso agora tenho de fazer a minha parte. Assumi o compromisso de lhe permitir a melhor recuperação, com o descanso necessário, não ter pressa, hidratar, não intoxicar com medicação, dar-lhe apenas boa nutrição e muita paz…

E mesmo que tudo isto possa parecer fruto de uma anestesia muito bem dada… no fim agradeci-lhe profundamente por me ter revelado um pouco mais de si…

Muito mais que um templo…muito mais que um veiculo…

A mente, o Corpo e a Alma partes de uma mesma equipa nesta experiência terrena… e como qualquer equipa, por vezes só um precisa de se chegar à frente…

O nosso corpo é um Herói… um discreto herói…

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