GORDOS Um dos pratos Favoritos dos Bullys

Sobre o Bullying…

Ainda que o trauma seja adormecido e avancemos, ser alvo de Bullying deixa informação para a vida. Em processo de orientaçao são muitas vezes revelados processos de bullying na infancia e adolescência, como bloqueadores do nosso sucesso ou da nossa confiança na vida adulta. O aperto no coração é normal porque sem querer é “acordado” o gordo, feio, caixa de oculos…” que adormeceu, enquanto não encontramos sentido para que alguem gratuitamente nos tratasse mal… Neste texto partilho a minha história e a de alguns clientes.

Em junho de 1982, tinha 12 anos, um metro e ciquenta e 65kg, não é dificil perceber: Eu era “gorda”. E embora nesta época o corpo não tivesse uma expressão como nos dias de hoje, já era colocada de parte e constantemente relembrada que as minhas ideias não eram tidas em conta, porque eu era “A gorda”… Se dizia algo sem piada ” a gorda não tem piada” , se por acaso até conseguia ter alguma piada ” olha a gorda a querer ter piada”… Tudo o que fazia ou dizia era desvalorizado perante o grupo, especialmente pelas magras ou pelos populares que tinham tido a sorte de nascer magros.

Tal como eu, muitos jovens viveram esta tormenta durante a infancia e a juventude. Foi no livro da Condessa de Segur ” O Concurdinha” que consegui encontrar esperança de que um dia tudo seria acertado, li e reli-o vezes sem conta em busca de conforto. Neste conto, Chico o filho do jardineiro, foi impedido de se relacionar com a filha do patrão, não só por ser filho do jardineiro mas também por ser corcunda. Chico cresce, vai estudar, regressa já adulto, medico e curado da sua corcunda… e casa com a filha do patrão.

A História só não tem um final feliz, por revelar uma triste realidade; foi preciso deixar de ser corcunda e ganhar estatuto, para chico ter direito a ter o seu amor correspondido… A mensagem subtil de que teria de mudar a condição do meu corpo para ser aceite foi recebida e aos treze anos deixei de comer, fiz uma dieta rigorosa. Em poucos meses perdi dezoito quilos, rapidamente deixei de ser gorda. O espaço antes ocupado pelo meu corpo parece ter ficado ocupado com a tristeza por ter sido mal tratada por ser gorda, com uma falta de sentido e com as perguntas para as quais nunca consegui resposta :

-Porque ser gorda era uma coisa má ?

-Porque as pessoas tem tanta raiva aos gordos?

-Porque é que eu não tinha conseguido vencer essa raiva ?

-Seria a raiva destinada à GORDA ou seria destinada a mim ?

Estas questões, algumas sem resposta deixaram a duvida durante muitos anos e ainda hoje com cinquenta anos, os meus olhos comovem-se a escrever estas palavras. Continuo sem encontrar sentido, é dificil perceber porque é que o corpo de outro pode ser alvo de gozo e desvalorização… como é que alguém tem a a coragem de inferiorizar o outro pela sua condição fisica, cor, status ou outra condição qualquer.

E… como se não bastasse as décadas seguintes agravaram esta questão, cresci num tempo FEIO e demasiado plastico, que me confirmou todos os dias que é mesmo assim:

Não podemos acima de tudo ser gordos. Mas também muito baixos ou feios, não podemos ter mamas nem muito grandes nem demasiado pequenas, não podemos ter o nariz torto, nem labios muito finos… tambem não podemos ser pobres, nem ter carros velhos, não podemos vestir qualquer coisa…aliás já podemos mudar quase tudo no nosso corpo para vivermos hipocritamente FELIZES!!!!

O meu percurso profissional, no mundo do espectaculo, deu-me a conhecer outras formas de bullying mas o alerta de ser gordo esteve sempre presente:

A superioridade artistica mostrou-se perigosa,

O sucesso artistico em qualquer “tipo de performance” confere o direito a “alguns artistas com queda para bullys” a se considerarem superiores aos que trabalham para eles…Também nesta condição de artista há o estigma ao gordo, salvo raras excepções todos fogem de ser gordos, quase sempre fazem dietas para ser ainda mais aceites… Depois há o sucesso que provoca um tipo estranho de inchaço e alguns julgam-se deuses, dando-se ao luxo de tratar todos à sua volta como seres inferiores e a ter caprichos que poem produções inteiras a trabalhar sob pressão desumana, tornam-se uns requintados bullys, com comportamentos que acontecem estritamente em ambiente profissional. O publico nem desconfia que muitas vezes está a aplaudir Bullys, prepotentes e arrogantes. Claro que existem projectos exemplares, existem profissionais exemplares…Mas há muito bullying profissional e hipocritamente silenciado e aceite no meio artistico!

Os conteudos e o Bullying

Depois existem os conteudos. Trabalhei os ultimos 16 anos com comédia e como observadora apercebi-me de alguns perigos. A comédia quando feita sem consciência pode disseminar o bullying. Nos projectos em que coordenei produçao, fiz assessoria artistica e participei na co-criação de conteudos, foi-me colocada a alcunha “lapis azul” ou a “corte” as minhas propostas foram sempre no sentido de desconstruir o bullying e chamar a atenção que não podemos rir de tudo, uma tarefa nem sempre fácil quando o humor teve um boom nacional.

Nas equipas as piadas mais disruptivas não são propostas com má intenção, o que não quer dizer que o seu efeito seja socialmente positivo e responsável. Numa epoca de explosão humoristica e numa cultura de piada fácil nem sempre foi fácil fazer este exercicio, é preciso encontrar equipas que vibrem no mesmo padrão de responsabilidade. Não acho que a intenção do humorista seja a de cultivar o bullying, mas sem consciência é o que muitos fazem, ensinam a rotular para fazer rir e deixam mensagem de que não há mal nenhum rir das diferenças; dos feios, dos gordos, dos caixa de oculos, das mulheres, dos gays. A mensagem educativa é que se eles podem fazer isto em espectaculo, qualquer jovem o pode fazer no seu “palco escolar e social” gozando com os “rotulados” para arrancar umas gargalhadas dos amigos.

Um dos exemplos que mais me chocou foi com o Bruno Nogueira, há uns anos em Torres Vedras. A plateia estava cheia e o Bruno arranca com um texto fortíssimo sobre as Gordas. Ele Magro e muito Alto cascou durante largos minutos nas “gordas com Leggings”, criticava e reforçava que ver uma gorda de leggings era algo que o enojava… Como produtora, fiquei mal disposta e envergonhada a plateia gelou perante a sua raiva às gordas. Nunca percebi como é que ele manteve o texto quando nas primeiras filas mais de 50% das senhoras estavam de leggings e eram GORDAS. Este comportamento é uma verdadeira apologia à exclusão. Com o mesmo humorista, já sem gordas, no primeiro confinamento, deu-se grande enfase ao natal em Maio e à sua “comoção”. No entanto o sucesso desta rubrica foi baseado na exclusão… E por muito que se desculpem que a coisa estava combinada que o Manzarra aceitava e brincava, a mensagem que fica é clara; excluir faz rir. O humor pode usar o bullying para educar, e o projecto Rouxinol Faduncho é exemplo disso, ilustra um personagem arrogante e ao mesmo tempo absurdo, com um excesso de confiança inabalável. Rouxinol desvaloriza a equipa, retratando o EGO inflamado do ARTISTA. Em palco houve sempre o cuidado, para que os musicos se manifestassem perante a arrogancia do personagem, passando a mensagem de que temos de responder aos bullys, só somos alvo se o permitirmos. E prova disso é que muitos musicos que tocavam pontualmente no projecto, revelavam adorar este exercicio, porque Rouxinol lhes permitia responder à letra, o que não podiam fazer perante a arrogancia de outros artistas. Neste projecto perante o publico, os musicos tem sempre espaço à resposta, havendo momentos em que a plateia toma o partido dos musicos e o personagem vira o jogo acusando-os a todos de bullying contra o artista. O facto de estar a lidar com um personagem facilita esta acção, marcando-a no tempo e no espaço. No caso de humoristas como Bruno Nogueira e outros, em que os seus textos tem como base o seu próprio sentido de humor, existe um ascendente maior sobre o publico e se riem de exclusão é essa a mensagem subtil que fica no ar, porque nada é desconstruido pedagógicamente.

Mas o bullying obviamente está tambem muito presente no meio empresarial onde as pessoas são excluidas e ignoradas por manifestarem opiniões ou pela sua condição fisica . Recordo uma cliente que trabalhava numa multinacional, revelar que tinha sido substituida por uma colega nas reuniões de direcçao sem perceber porquê, mais tarde veio a saber que o novo director não queria ter uma secretária de direção gorda.

Por outro lado há uns tempos recebi uma mulher, directora de uma grande empresa que embora segura de si, sentia alguma tristeza porque sempre que lançava uma medida impopular na empresa, já sabia que os funcionarios e as equipas a tratavam como a MADAME GORDA XXXXXL…A sua questão era: O que me chamariam se eu não fosse GORDA

Os Social media… Parecem trazer novas ferramentas … Já não precisas de SER … SE FINGIRES BEM … Nada é mais importante que PARECER … Mas claro, dentro dos Padrões… A Filipa tem um corpo desproporcional e apenas mostra os ombros e a cara… Tal como eu fiz aos treze anos e o Chico corcunda do meu livro, aprendeu que tem de alterar ou esconder a sua condição fisica para ser aceite… faz um trabalho excelente mas sabe que ao mostrar o seu corpo é mais dficil ter seguidores… A questão da Filipa numa geração que diz ser menos preconceituosa, leva me à questão que deu origem a este texto…

Porque é que ser GORDO gera tanto sofrimento ? Porque fugimos de ser gordos socialmente ?

E embora eu tenha encontrado os meus motivos para não querer ser gorda , suportando-me em ser saudável, em ter uma alimentação consciente e sustentável continuo à espera de uma resposta…Nunca mais fui gorda, mas “a minha gorda interna” continua à espera de saber:

Porque é que socialmente existe uma enorme raiva ao GORDOS ?

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