O PATRÃO e o SAPO

A propósito de um post profissional em que alguem se despedia de um cargo que a estaria a obrigar ir contra os seus principios e a “engolir sapos” a torto e a direito, recordei-me do meu segundo “emprego”. Em 1991, estava no meu primeiro casamento, aluna universitária, em Julho, arranjei um part-time que me permitia trabalhar ao mesmo tempo que estudava.

O part time consistia em fazer desenho tecnico em projectos de arquitetura, portanto desenhar instalações electricas e condutas de ar condicionado. O meu jeito era muito pouco, mas desenrascava-me, com a ajuda dos colegas melhorava a minha tecnica.

Com o tempo percebi que ao “meu” patrão dava jeito ter alguem que não percebesse muito daquilo, pois existiam desenhos que deveriam, propositadamente, ser devolvidos para rectificações! Esquemas para cobrarem mais horas, com outras intençoes que eu desconhecia. Apercebi-me destes esquemas quando, por ser curiosa e gostar de saber o que faço, começar a esclarecer duvidas com os colegas de estirador e concluir que as minhas condutas vinham propositada e estrategicamente mal colocadas. Eu sem querer estava a participar de um esquema pouco honesto. Quando questionei o patrão sobre isso, perguntou me se a “pulga já tinha catarro”, que só tinha de desenhar o que estava projectado, porque era para isso que me pagavam. No atelier houve burburinho entre todos, mas engoli o SAPO NUMERO 1

No atelier éramos apenas duas mulheres, no fim do segundo mês de trabalho a minha colega veio ter comigo, informando-me que tinha descoberto, que o nosso patrão estava a pagar mais aos homens que às mulheres, mesmo os que entravam sem experiência recebiam mais do que as mulheres. Questionei o dito patrão sobre esta questão e a posição foi peremptória: Eles são mais rápidos… fui para casa e engoli o SAPO NUMERO 2 .

Dia 24 de Novembro de 1991, morria um dos cantores que mais admirava: Freddie Mercury. Nunca fui grande fã de ninguem, mas admirava muito os QUEEN. Nesse dia fui a primeira a chegar ao atelier (todos tinham chave) estava visivelmente triste.Os meus colegas de atelier eram quase todos musicos, íam chegando também tristes com a noticia. Cada um no seu estirador, abria o seu conjunto de canetas rotring e desenhava em silencio. Por volta das onze da manhã o nosso “querido patrão” o Sr Falcão chegou. Vinha como sempre, muito energico com os rolos dos desenhos debaixo do braço transpirado! Começou a distribuir os desenhos e ao perceber que ninguém reagia, perguntou – o que se passou ? e eu respondi – O Freddie Mercury morreu Sr Falcão… Ao que ele respondeu : – “Ah filha é menos um paneleiro na terra!”

Acho que nunca nada me caiu tão mal…Tranquilamente comecei a arrumar as minhas canetas dentro do estojo!

E o sr Falcão perguntou-me:

O que é que estás a fazer ?

Não vê que estou a arrumar as minhas coisas ?

Vais mudar de de estirador ?

Não senhor Falcão, vou me embora !

Mas e os desenhos… tens de os acabar!

calmamente disse-lhe:

Vai ter de os fazer você…é mais rápido … Eu não faço nem mais um risco e vou-me recordar sempre de si como um modelo de homem e patrão com quem não voltarei a trabalhar: Um homem que diferencia o valor do homem e da mulher, um homem cheio de esquemas… e sem empatia nenhuma, não foi bom conhecê-lo!

Peguei no meu estojo, na minha mala e saí feliz e mais forte que nunca.

Não cheguei e engolir o SAPO NUMERO 3 … e assim foi até hoje…

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