Sem Futuro… Simplesmente PRESENTE

Não tenho como escrever este texto sem ser controversa comigo mesma…

Sou, também produtora , além de orientadora sistemica e terapeuta.

Enquanto profissional da àrea de espectaculos estou parada desde o inicio da pandemia, um dos sectores mais afetados. Na empresa tivemos quebras de faturação na ordem dos 84% em 2020 e 2021 já chegou aos 100% . Tinha tudo para me queixar… mas não é isso que venho fazer.

Cancelado foi a palavra de ordem durante a pandemia, quer para mim quer para o meu marido ambos trabalhadores na àrea do espectaculo… Mas este cancelado colocou outras palavras na ordem dos nossos dias : VIVER O PRESENTE

Sem teletrabalho, sem ter por onde trabalhar desde março de 2020 o nosso tempo foi inteiramente dedicado à familia e a cada momento PRESENTE, pouco há a fazer quando o futuro não se deixa sentir, projectar ou sequer perceber.

Viver o AQUI E O AGORA dos filhos a estudar a partir de casa, o AQUI E AGORA da casa, o AQUI E AGORA de tudo o que foi acontecendo no nosso nucleo foi o melhor que aprendemos a fazer.

Aproveitámos e fizemos de cada AQUI E AGORA uma grande terapia familiar. A pandemia aproximou-nos e trouxe a grande oportunidade de nos observar enquanto familia, conversar, jogar, partilhar e falar sobre as emoções individuais e sistémicas…

Com mais tempo para olhar uns para os outros, confrontámo-nos e juntos sarámos muitas das feridas que nem sabiamos existir e que sem querer e sem perceber tinhamos feito uns aos outros ao longo dos ultimos anos.

Resolvemos e ressiginficamos velhas crenças… escrevemos a nossa história e até a publicamos, perdemos medo e vergonha e ficámos mais fortes. A pandemia trouxe-nos uma nova vida dentro do incerto e aproximou-nos…

Antes de março de 2020, Luis, o meu marido, sempre se ausentou em tours durante alguns meses. Ía e vinha dos vários continentes e cada partida ou chegada, era sentida com uma enorme descontração. Um beijo para quinze dias de distancia era tão intenso como um beijo para um mês. Pouca diferença fazia . Fiz sempre questão de o ir buscar ao aeroporto, mas era como se o tivesse largado no dia anterior.

Dia 22 de Julho 2021, foi diferente…

O Luis, viajou em trabalho para um novo desafio durante alguns meses. De manha antes de acordar já tinha saudades dele, antes de sair de casa, para o levar ao aeroporto as lágrimas teimavam em inundar-me os olhos … no ultimo abraço já no aeroporto, os soluços saltaram-me do peito, percebi de imediato que algo em mim tinha mudado, não encontrava o beijo normal das despedidas anteriores. Passados 18 meses de pandemia desligou-se em mim todo o automatismo de partidas e chegadas e voltei a sentir o mesmo soluço da despedida, que senti aos dezanove anos. Um soluço que me perfurava o peito e abria uma fonte de lágrimas com uma dor estranha que me deixou adormecida o dia inteiro. Percebi que a pandemia deu-nos tempo para sentir ou voltar a sentir.

Hoje controversamente, percebi que a pandemia além da quebra de faturação me trouxe a oportunidade de voltar a sentir SAUDADES , de chorar na despedida, de SENTIR o AQUI E O AGORA e de um ADEUS que me sai de dentro do peito!

E que bom que é sentir.. seja lá o que for … no momento PRESENTE sentir… sem querer saber o que o futuro nos reserva…

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