onde está o “nosso” Feminino ?

Este não é um texto feminista, nem pretende ser um manifesto da mulher.

Muitas clientes chegam em busca de resposta para padrões repetidos de relações que não funcionam. Regra geral, as relações amorosas, acabam sempre da mesma maneira ou de forma muito parecida.

Nestas situações não é raro abordar a questão do feminino e do masculino. Não enquanto homem e mulher , mas enquanto duas energias complementares, que existem dentro de cada um de nós. Entendo que o facto de ter nascido homem ou mulher não determina a percentagem maior de uma ou de outra. O que determina a quantidade de energia feminina ou masculina que existe dentro de nós é a forma como entendemos essa energia no mundo, as nossas crenças e toda nossa história transgeracional e humana de género.

A Graça falava das relações que não dão certo :

“Sou uma mulher forte, independente, determinada, tenho tudo o que um homem poderá querer e no entanto eles fogem quando vêem que não sou submissa !”

O que é para si ser submissa?

“É fazer o que ele quer que eu faça, eu não quero saber , não sou submissa ?”

Mas é mandona ?

“Como assim ?”

É mandona ?

“Um bocadinho ! “

De 0 a 10 ?

“Diria que 5 ! “

Repeti a pergunta porque percebi que não era bem assim :

De o a 10?

“Talvez um pouco mais, talvez 7 ou 8…”

Quanto feminina você é de 0 a 10 ?

“Nota máxima, eu uso make up, uso vestidos, eu gosto de me arranjar. “

Eu não lhe perguntei sobre o que você faz para ser feminina, mas sim o quanto você é , de 0 a 10 ?

Sem hesitar a Graça respondeu:

-Zero, eu sou zero feminina… eu não confio no fluxo da vida, eu não me ligo à terra, eu não escuto o corpo, nem os animais, eu não tenho serenidade na voz nem na alma , nada frutifica em minha casa, as plantas morrem todas…

De que tem medo no seu feminino ?

“De ser submissa ! “

Quem foi submissa ?

“A minha mãe!”

De 0 a 10 quanto feminina era a sua mãe ?

“- Zero ! curioso o mesmo que eu!”

-Então ser submissa nada tem a ver com ser feminina, concorda ?

“Sim nessa perspectiva é verdade…nunca tinha visto isso assim!”

Ser submissa e ser independente fazem parte do mesmo movimento social. As mulheres durante muitos anos foram submissas porque dependiam muito dos homens e porque os conceitos religiosos e sociais assim as criaram, uma mulher tinha de se vergar ao homem. O movimento gerado pela submissão, com o desenvolvimento das sociedades, foi a independência e a autonomia.

Este novo comportamento activou nela uma “energia” masculina, pois essas eram qualidades que pertenciam aos homens e essa energia acabou ganhar um espaço maior , reduzindo o espaço ocupado pela já escassa energia feminina.

-Mas eu não me considero masculina!

-Não é ser masculina, mas ao adoptar este padrão de comportamento associado aos homens, enquanto mulher acabou por activar a energia masculina. Foi a acção necessária para contrariar o rumo de submissão das mães, mas que não resgatou energia feminina e aumentou o fluxo masculino em cada uma.

-Mas eu não quero ser o sexo fraco !

Não existe sexo fraco, esse é mais um dos conceitos socioculturais que nos traem quanto ao feminino. O caminho do “feminino” ou da mulher, feito ao longo do ultimo século foi transformador, mas também ingrato.

São décadas de busca de um lugar na sociedade e as alterações aos comportamentos e posicionamento, acabaram por desenhar uma grande confusão energética dentro dos campos que as formam.

Esta confusão não é só porque se tornaram independentes e por assumirem posições antes exclusivamente masculinas, mas também por falta de referências transgeracionais sobre o feminino. Não nos podemos esquecer que antes desta evolução da mulher na sociedade, o Feminino das suas mães e avós, bis, tetra-avós etc, estava deturpado, desenraizado e des-estruturado, ser mulher social era ser submissa, calada, inculta.

Simone Beauvoir diz no primeiro volume de “segundo sexo” que toda a evolução da mulher para se tornar independente a tinha deixado no lugar de “sexo perdido” e embora o livro date de 1949, a sua percepção continua actual “O certo é que hoje é muito dificil às mulheres assumirem concomitantemente a sua condição de individuo autónomo e o seu destino feminino”

Assumida uma nova posição na sociedade precisamos de investigar onde ficou aprisionado o feminino das sociedades matriarcais. Não para que algum sexo tenha mais poder que o outro, mas para nos ser devolvida essa energia, pois tanto homens como mulheres precisamos muito dele para voltar encontrar o equilíbrio e o destino da energia feminina e masculina dentro de cada um de nós.

Como fazemos isso ?

É um resgate que cada um deve fazer individualmente, olhando para as mulheres do seu sistema e percebendo , que cada uma usou as melhores ferramentas de sobrevivência que conseguiu: submissão, silêncio, castração, anulação, histeria. Mas estas ferramentas não são no reflexo do que é ser feminina.

A partir do momento que deixamos de rotular estes comportamentos com o “feminino”, e passarmos a identificá-los como mecanismos de sobrevivência, poderemos chegar à fonte onde tudo foi parado… e quem sabe tornar a liga-la!

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