amo-te … amo-me

Em 2017 estive durante todo o ano lectivo com um grupo de quatro jovens, numa escola publica. Fui chamada para dar orientação a cinco jovens, que já pertenciam a um projecto especial de integração e não estava a correr bem.

Quando falei com a directora e apresentei o meu modelo de orientação deixei claro que para estas jovens ficarem comigo, eu não poderia ser nem uma desculpa para faltar às aulas, nem teria qualquer influencia directa nas notas.

A escola encerrava às sextas feiras a partir das 13H para reuniões pedagógicas, assim esse foi o melhor horário que encontrei para as nossas sessões: Sextas das 13H30-15H30. Se conseguisse tê-las neste horário, quando o fim de semana ja tinha começado, a nossa parceria tinha tudo, para correr bem.

Costumo dizer que a “minha passagem” no mundo já poderia terminar, pois a alegria que sinto na presença destas memórias é superior à minha capacidade de as explicar e pergunto sempre: “Que algo maior posso sentir, do que esta alegria no coração, de poder ajudar a transformar vidas, discretamente…não existe dinheiro, status, aplauso no mundo que vibre na frequência desta emoção superior “

Começamos as nossas sessões. E a melhor avaliação à assiduidade, foi quando nem as pontes queriam fazer, sempre que um feriado acontecia à quinta feira. Elas chamaram-lhes de “nossas sextas feiras santas” eu chamei-lhes de “sextas de Luz”.

Estas quatro jovens tinham entre os 13 e os 16 anos. Re-incidentes na falta de aproveitamento escolar, der presença e mau comportamento nas aulas, levou-as ao projecto.

A Jacine tinha o pai preso e com as sessões foi manifestando, uma enorme raiva dentro dela.

Sempre que falava do pai, o brilho nos olhos revelava que dentro dela a raiva e o amor estavam misturados em proporções desequilibradas. O AMOR era maior.

Em jovens e crianças é muito fácil detetar estes fenómenos, que acontecem em quase todos nós.

Numa sexta feira, chegou sozinha à sessão e disse-me:

-Hoje venho sozinha…

-Então as outras não podem ? – Perguntei

-Elas podiam , mas eu preciso estar sozinha contigo e pedi-lhes que não viessem…

-Ok Jacine – respondi

-Preciso de falar sobre o meu pai, porque … – começou a soluçar- eu sei que ele não presta, mas eu tenho raiva porque, tenho saudades dele… devo ser má como ele!

-Quem te disse que o teu pai não presta ?

-Eu sei Ana, ele enganou toda a gente, quase matou uma pessoa, roubou, ele não presta …

-E nós não podemos gostar de pessoas “que não prestam” é isso ?

-Claro Ana… obvio!

-Jacine , o que são pessoas que não prestam ?

– São pessoas que fazem as coisas erradas, que roubam, que traficam, são “gandulos” e “gatunos”, “bandidos”…”carochos”

-E o teu pai é “bandido” ?

-Sim, claro que é! … E além disso desde que está preso a minha mãe já conheceu três mulheres com quem ele andava ao mesmo tempo, é um traidor… ele não vale nada!

-Jacine como se chama o pai ?

-Semedo, é assim que todos o conhecem !

-Ok , o Pai algum dia “te” fez alguma coisa que te marcasse muito ? abusou de ti fisicamente de alguma forma ?

-Não , não Ana, ele nunca me faria mal assim ! Às vezes tinha pouca paciência, mas isso é normal , todos os adultos são um bocado assim, eu às vezes também tinha pouca paciência para as parvoíces dele!

Amor Sistémico vs Educação

Sobre o AMOR aos PAIS há que colocar ordem na mesa. Seja com, crianças, jovens ou adultos a “inteligência Emocional” pede organização de ideias e conhecimento profundo sobre o funcionamento desse AMOR :

1º- Quer queiramos ou não o AMOR AOS PAIS existe sempre dentro de nós, esteja ele no plano consciente ou não. Assim como não conseguimos controlar o funcionamento dos nossos orgãos internos, existe também na relação com os nossos progenitores um AMOR VISCERAL , inacessível à racionalidade.

2º-Somos educados que não podemos AMAR o errado… Se amamos o ERRADO é porque somos espelho desse ERRADO. As crianças crescem a ouvir pais e avós a dizer muitas vezes ” se fazes assim não gosto de ti”, “se fazes assim deixas de ser meu filho” , ” se fazes assim é porque não me amas etc etc etc , ” pareces o teu pai” , “ainda ficas como o teu pai”. Se não podemos AMAR o errado e o meu PAI ou a minha MÃE fazem coisas erradas, eu socialmente e racionalmente não os posso amar…ou então sou como eles, isso é mau! Começam assim, grandes conflitos internos, a criação de muitos vazios e a mistura entre o que eles (pais) são e o que nós (filhos) somos enquanto pessoas com escolhas e experiências individuais.

Surge a questão : Quando tenho pais com vidas errantes, o que faço a esse AMOR VISCERAL que começa antes de tudo ?

Resposta : Separo os Pais das Experiências Individuais

Voltando à sessão com a Jacine:

-Jacine o pai está preso onde mesmo ?

-Em Caxias ?

-Já lá foste ?

-Não , não quero …

-Vamos lá as duas ?

-Como assim Ana ?

-Já fizemos muitas viagens aqui nesta sala , queres experimentar ?

-Quero muito Ana…vamos …vens comigo !?

-Sim vamos as duas… respiramos fundo e …fechamos os olhos…

A Jacine fechou de imediato os olhos e começou a respirar… esta amorosa “miúda” parecia um pequeno Buda no processo meditativo, quer pela rapidez, quer pelo poder de se colocar em processo… E assim foi, também desta vez… rapidamente alcançou o estado de viagem pretendido e eu fui guiando:

“Chegamos no meu carro, estacionámos no parque e caminhámos para a entrada da prisão de Caxias, um guarda abre a porta e pede-nos o cartão de cidadão, é um local frio, mas limpo… o guarda pergunta-te quem vens ver e tu dizes ” O SEMEDO”…só pode entrar uma pessoa, por isso, por indicação do guarda, vou ficar na sala de espera… dou -te um abraço e respiramos coração com coração… tu entras para outra sala…. continuas a respirar … e observas a sala… o que vês ?

-Tem duas cadeiras e uma mesa… uma janela com grades … vou sentar-me…estou a ouvir passos a porta tem um vidro e estão a abrir a porta…

-Consegues ver alguém ? – perguntei

-Sim… o guarda é gordinho e vem a sorrir com ele… aposto que deve estar a contar anedotas, está sempre a dizer parvoíces engraçadas …

-Como estás ?

-Estou bem … é bom vê-lo bem disposto … está à minha frente…

-Ok… o que queres fazer ?

-Abraçá-lo , quero abraça-lo… tantas saudades pai … tenho tantas saudades tuas…

-como reage o Pai ?

-Abraça-me também… é como se o Semedo ficasse na Cela e só tenha vindo o meu pai… estamos aqui só os dois… a abraçar-nos … o meu pai tem umas mãos grandes e fortes… o abraço dele é tão bom e tão quentinho… que só quero ficar aqui com ele…

-Aproveita Jacine … abracem-se… vai respirando esse abraço… sente esse abraço no teu coração… é no nosso coração que estão armazenadas as memórias, escolhe um lugar para guardar este abraço …

Após alguns momentos em que a face e a expressão da Jacine mostravam serenidade e alivio, pedi-lhe que dissesse ao pai:

-Eu agora sei quem é o Semedo e quem é o meu Pai… eu não vou deixar de te amar por tudo o que fizeste de errado… o Semedo tem de ficar na Cela e responder por tudo errado que fez… a Mãe também vai ter de resolver contigo as coisas que fizeste com ela enquanto homem… eu gostava de te ter comigo fisicamente, mas as escolhas desse Semedo pouco responsável não o permitiram, eu vou conseguir Pai, vou conseguir ultrapassar isto , porque agora eu já sei separar o Semedo do meu Pai … e também sei que se lutar contra o AMOR que sinto por ti, dentro do meu corpo, estou a fazer-me mal… sabes pai, há um amor por ti nas minhas células que eu não posso e decidi que não vou contrariar… Sabes que eu na escola já estava a ser um pouco “Semedo”, já estava a fazer tudo errado pai?… AMO-TE não há nada melhor que poder dizer: AMO-TE… independentemente das escolhas pessoais que fizeste…

Agora eu SEI , para AMAR o Pai não preciso de concordar, admirar, nem gostar dos teus erros…. AMO- TE PAI… AMO muito a tua parte que está em mim…

O AMOR VISCERAL e A COMPAIXÃO

A Compaixão é a base para levar a vida em PAZ…

A Compaixão é a aceitação do outro, através da consciência de que cada um de nós, independentemente de ser pai ou filho de alguém, viemos viver uma experiência terrena onde desempenhamos várias funções: a reprodução é apenas uma dela, estamos longe de viver para ser só pais, ou só filhos, temos muita coisa para experiênciar, muitos desafios que nem sempre nos permitem ser bons em tudo…

Muitas pessoas chegam a mim, já com um grande percurso espiritual e com grandes raivas dos pais, um conflito enorme com o Amor visceral e análise racional psicosocial aos pais. EU SEI, que enquanto não resolvermos esta postura perante os nossos progenitores, não seremos agentes de PAZ nem seremos compassivos.

Nunca conseguiremos aceitar percurso do outro em verdade, se o não fizermos com os nossos pais. Enquanto vivermos em conflito interno com este AMOR visceral, que renova as nossas células diariamente não é possível viver em amor ao próximo…

Costumo dizer que a consciência deste AMOR VISCERAL é o mensageiro e a chave que todos temos para a frutificação da compaixão no mundo …

É a chave para a frase : ” Ama o Próximo como Amas a Ti Próprio”

Quando te Amares verdadeiramente e cumprires o Amor em Ti : o Visceral e o Racional, então sim, saberás como amar o Próximo…

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