A ARTE de SABER DIZER “NAO SEI”

Dizer, sentir e assumir “Não Sei” é algo fundamental para a evolução da humanidade. Este texto é um convite à reflexão e parte de uma observação e de uma vivência pessoal em diversos contextos. Seja no relacionamento profissional, pessoal ou terapeutico há uma enorme, resistência a assumir que não sabemos.

E essa resistência manifesta-se de diferentes maneiras:

Há os que dizem saber sem bases para o fazer… julgam poder confiar na sua experiência pessoal e interpretação ou no famoso : “Eu depreendi que…”

Há os que se calam fingindo entender o que foi dito e buscando esclarecimentos á posterior…

Há os que assumem que sabem com base no que outros disseram sem se certificarem das fontes…

Há os que confiam nas fontes de informação, de entretenimento, noticiosas, revistas cor de rosa, posts de redes sociais.

Sempre tive uma qualidade que para muitos é uma fraqueza ou demonstração de vulnerabilidade, quando não sei pergunto:

No inicio da minha experiência empresarial de produção para televisão, não me recordo se na RTP ou SIC, numa reunião com a direcção de programas o director falava de audiências e usou o termo “Ratium”. Pareceu-me que para todos aquele era um termo familiar, no entanto para mim era novo. Da segunda vez que o termo foi colocado em cima da mesa, decidi intervir :

” Peço imensa desculpa, mas já percebi o Ratium é algum importante para a audiência do programa, mas eu tenho de confessar que não sei o que é, se me puder explicar…!”

Como é comum nos meios profissionais, recebi alguns olhares de reprovação e enfado, nada a que não estivesse habituada, sempre que fiz este tipo de intervenção. No entanto o director parou a reunião e explicou me de forma académica o que o termo queria dizer, quando terminou agradeci:

” Muito grata, não seria justo estar a escutá-lo sem saber o que queria dizer e não estaria inteira na reunião se estivesse focada no que não sei!”

“- Eu é que te agradeço Ana e acredita que mais pessoas nesta reunião apanharam boleia do teu/meu esclarecimento ”

Quando saí da reunião as três pessoas que estavam comigo, comentavam: “- ainda bem que perguntaste , nós também não sabíamos, “googlávamos” a seguir! (risos) Assim fizeste tu o papel da ignorante!..”

Houve alturas em que me sentia mal por perguntar, nunca o deixei de fazer e com os anos fui percebendo a utilidade deste assumir “não sei”, para o meu desenvolvimento pessoal

O que me motiva a escrever estas linhas é o porque de o “não sei” ser tão temivel, ao ponto de existir “medo”, “receio”, “vergonha” e “preconceito” em assumir algo tão normal como o “não saber sobre algo”…

Porque é tão difícil de dizer ou assumir “Não Sei” ? Os olhares de reprovação que recebi na reunião respondem por si, mas esta reprovação é sistémica e acontece em todas as idades.

O sistema educativo desde há gerações lida com o NÃO SEI como algo anormal. Há décadas colocavam se orelhas de burro e este medo ainda persiste nos nossos campos e memórias. A motivação à competição, à comparação com o outro, o melhor e o pior da turma, os quadros de honra …Não saber é estar negativo, não saber é ser mau estudante, não saber é ser preguiçoso, burro, incapaz , nos dias de hoje é ter défice de atenção, hiperactividade, problemas cognitivos, herança familiar, ser limitado… Este medo de não saber carrega um peso enorme, coloca nos em desvantagem e leva-nos a questões muito complexas:

Ao não assumir que não sei, posso arriscar a minha sabedoria e cometer erros fatais

Ao não assumir que não sei perco a oportunidade de aprender a ir em busca de conhecimento

Ao não assumir que não sei, e para impressionar, vou buscar conhecimento a fontes rápidas e pouco “fidedignas” sobre qualquer matéria…

Talvez a longo prazo este medo de assumir “Não Sei”, nos tenha levado a um caminho de ignorância. Não é raro ouvir “Não sei nem quero saber” …. Este comportamento do “parecer que sei é suficiente” conduz-nos a uma era de desinformação, de nem sequer saber, como procurar conhecimento, á preguiça pela busca de saber, à falta de capacidade de análise, à confiança cega em qualquer fonte informativa, ao grande risco de manipulação.

Só poderemos ir em busca de conhecimento, quando sabemos que não sabemos…só conseguiremos desafiar as nossas capacidades quando assumimos que não sabemos…

Dizer NAO SEI é um dos maiores indicadores de SABEDORIA…

Um dos temas que mais gosto de trabalhar com jovens e crianças é este brincar “ao não sei” …

Quando sentimos leveza ao dizer “EU não sei” , quando não somos reprovados ao assumir que não sabemos , abre-se naturalmente espaço para a Curiosidade e vontade de querer encontrar caminhos para SABER…

Que seja um 2022 melhor para todos!

http://www.orientacaosistemica.pt

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