“Amigos” que nos fazem Mal…ou transformam

Assim como existe a orientação e terapias de casal, cada vez mais me solicitam para orientar relações de amizade.

“O que me vieste ensinar ? Para onde preciso olhar ? O que preciso aprender com a tua passagem pela minha vida ? “

Hoje começo pela proposta final… Três perguntas para levar connosco para onde quer que formos e para nos questionar em qualquer situação da nossa vida.

Sei poucas coisas e esta talvez seja das poucas que SEI MESMO: Não somos vitimas de tudo o que nos acontece, nada é obra do acaso…Sei que existem provações muito dolorosas e muito difíceis de assimilar e de aceitar. E antes de avançar, preciso esclarecer que encontrar a função e utilidade do que me acontece, não tem nada a ver com ter de assumir “culpa” ou “responsabilidade total” pelo que me sucedeu. Existem muitas condicionantes na vida para que situações se desenvolvam de determinada forma, vivemos em familia, sociedade, comunidade. As vidas e escolhas de uns influenciam as de outros. Por esse motivo e por vivermos no meio deste tabuleiro de xadrez, precisamos de encontrar utilidade no que nos acontece e perceber, quais as jogadas que não voltaremos a fazer, as aprendizagens que queremos integrar, as situações que não podemos alterar e o que precisamos de alterar em nós para não sermos colhidos num novo cheque mate!

Este texto foi motivado pelos inúmeros casos que surgem com foco nas Amizades entre crianças, adolescentes, jovens e adultos.

As amizades são um polo de grande sofrimento e existem relações de amizade que por terem chegado muito cedo às nossas vidas, a sua acção sobre nós é tão ou mais intensa que a relação com familiares directos.

Não nos podemos esquecer que as ultimas gerações de crianças, foram criadas desde os seis meses em ambiente escolar ou ao cuidado de pessoas que tomavam conta de várias crianças, o que quer dizer que até aos 8 anos 70% do seu dia foi passado fora da familia. A interação com elementos fora do estreito canal familiar, assume agora, desde muito cedo, um papel e uma força preponderante no desenvolvimento cognitivo e comportamental e na dinâmica relacional, ao contrário das gerações anteriores. Não admira por isto que as relações de amizade, sejam cada vez mais foco de grande sofrimento e dependência emocional.

A Raquel sente-se mal porque não tem vontade de estar com uma amiga de infância.

“Fomos criadas desde a creche, não me lembro da minha vida sem ela, mas desde qu ela foi para Londres estudar, a minha vida ganhou uma leveza diferente! Custa-me muito dizer isto, mas na verdade estou melhor quando ela está longe e o pior de tudo é que me contou que arranjou um namorado em Portugal e tem a possibilidade de terminar aqui o ultimo ano!”

Ela regressar fe-la sentir-se mal ?

“-Até estremeci, tenho tido uma vida tão tranquila com ela longe daqui ! ”

O que a sua amiga, a faz sentir exactamente ?

-Não lhe sei explicar muito bem, isto parece absurdo, mas quando o telefone toca e vejo que é ela, o meu coração começa logo a bater mais rápido ! É uma parvoíce mas é a verdade!

O que é que se passou entre vocês para ter essa ansiedade ? Ela tratou-a mal ?

-Ela sempre foi muito impulsiva, por qualquer coisa explode! É inflexivel nas opiniões, acha ser mais merecedora que os outros, para tudo correr bem, tem de ser sempre à maneira dela e…

E a Raquel sempre aceitou que ela fosse assim consigo ? E sempre lhe fez as vontades ?

-Sim porque de alguma forma eu compreendia, ela foi uma criança infeliz, o pai traiu a mãe e separaram-se tínhamos 6 anos e eu sempre vi o sofrimento dela, estava sempre a dizer-me que eu não sabia o que era ter pais separados… cheguei a sentir-me culpada por ter os meus pais em casa! Acho que lhe desculpava tudo porque…

Porque ela a convenceu de que como você tinha o que ela não tinha, devia aceitar os maus tratos dela !?

-Pois, não sei ! mas acabei por justificar sempre a raiva dela com esse sofrimento!

E a Raquel não sentia raiva dela a tratar mal ?

-Sim, mas nunca a manifestei sempre fui muito calma!

Então e a Raquel guardava a SUA raiva, como se perdesse o direito a manifestar insatisfação por ter o que ela não tinha ?

-Pois de forma prática acho que foi isso que fiz! Foi inconsciente, eu sempre me coloquei no lugar dela , mas às vezes ficava mesmo muito magoada, chateada e chorava muito em casa…Só que no dia seguinte ela chegava como se não fosse nada e passávamos bem o dia!

E agora ela continua igual ?

-Está mais calma, mas tem sempre uns comportamentos inesperados por motivo nenhum, explode por tudo e por nada e nunca sei com o que contar, na verdade causa-me grande ansiedade.

E a Raquel não reage ?

-Não

Porque não reage ?

-Agora não reajo porque acho que se não reagi até aqui, perdi o direito a faze-lo, por outro lado continuo a sentir que não é justo confrontá-la e ao mesmo tempo ela vai achar que eu andei a esconder o que sentia!

Mas quer confrontá-la com o passado todo ?

-Pois apetecia-me dizer-lhe tudo, mas por outro lado hoje sei que fui eu que deixei!

Ou seja perante o comportamento dela aceitou, certo ?

-Sim, ninguém me obrigou, foi um modelo que adoptei porque quis…. mas guardei sempre as raivas dentro de mim !

E para onde acha que foram essas raivas ?

– Há quem diga que a minha queda de cabelo é emocional …Já fiz os exames todos não detetam nada…percebi agora no regresso dela, que voltei a ter muita queda de cabelo ! Desde que começamos estas sessões identifico a ansiedade a crescer, sempre que tenho de me relacionar com pessoas novas. Por exemplo, fazer trabalhos de grupo na faculdade começou a gerar-muita ansiedade e tenho vindo a perceber que está tudo relacionado com este modelo relacional toxico!

Então faz-lhe sentido que a raiva que nunca foi manifestada ao longo deste relacionamento seja a causadora da queda de cabelo e dessas manifestções de ansiedade ?

-Faz-me sentido sim !

Então o que gostaria de dizer à sua amiga ?

-Não sei o que dizer, apetece-me romper e pronto… não posso culpá-la por isto ?

Não deve romper, quando existem rupturas parece que criamos uma corrente mais forte com a pessoa.

Na minha opinião culpar não é o caminho. Mas pode olhar para a relação de outra forma e até agradecer, pois a sua amiga vem mostrar-lhe que algumas das suas dinâmicas relacionais precisam ser re-ajustadas. Essas dinâmicas usaram ferramentas de sobrevivência relacional na primeira infância, que já não lhe servem e neste momento até a prejudicam.

Precisa esclarecer:

-Que é importante não permitir que outros nos tratem mal por questões deles.

-Que a amizade é uma troca de experiências e não uma fonte de descarga de frustrações.

-Que não podemos cobrar aos nossos amigos aquilo que a familia não nos dá.

-Vem também mostrar-lhe a diferença entre compreender e aceitar um comportamento desequilibrado. Que ao aceitar e não contestar um comportamento disfuncional está a alimentar nessa pessoa a disfuncionalidade.

-Talvez também lhe esteja a ensinar que a Raquel não gosta de confrontações e que por isso é-lhe mais fácil aceitar , mas essa aceitação a longo prazo tem um custo elevado, para o seu bem estar. Talvez seja fundamental confrontar!

-Que o seu conceito de compaixão e de se colocar no lugar do outro está deturpado. É um pouco como aquela história da namorada, tanto gosta do namorado que lhe empresta dinheiro para droga e o encobre de tudo. Passados uns anos, não o suporta, acaba com ele porque se tornou agarrado, mas no inicio por amor cobriu todos os seus consumos.

As relações de amizade evoluem de acordo, com os comportamentos que alimentamos. E obviamente se alimentamos comportamentos disfuncionais vamos ter relações tóxicas. E a solução mais fácil, julgamos, é sempre a ruptura ou esperamos que rompam naturalmente.

-Era o que eu estava à espera!

Pois claro , era mais fácil , mas não iria resolver a sua questão. Nem lhe traria a aprendizagem que precisa para que não seja novamente alvo de alguém que reconhece/sente em si o talento para ser saco de encher numa relação de amizade. Aproveite esta oportunidade para selar essa relação. Marque uma conversa, acredito que na posse de novos dados, vai mais calma.

Talvez se surpreenda e talvez a sua amiga também sinta a relação como tóxica, talvez ela reconheça que a sua estabilidade familiar a irrita até hoje e a sua calma a perturba.

Talvez seja bom para as duas selar essa amizade e para ela uma oportunidade para se observar.

Todos tem uma função na nossa vida, na maioria dos casos não é evidente e pode até demorar algum tempo até percebermos QUAL.

Enquanto nos incomoda, faz mal e permanece na nossa minha vida é porque há algo que precisamos integrar, desmitificar, incluir, ressignificar.

Reforço a ideia de que as rupturas ou cortes abruptos, alimentam a permanência dessas pessoas nas nossas vidas.

Só nos libertamos e pacificamos, quando nos reconciliamos com o outro… e reconciliar-me com o outro é perceber o seu papel, a sua função na minha vida e deixa-lo ir em paz, sem ressentimentos, arrependimentos, raivas, frustrações.

Reconciliação é literalmente a melhor forma do outro deixar de nos incomodar…

Agora eu vejo o que me vieste ensinar, não mais terei qualquer raiva de ti… eu deixo-te em paz e liberto o meu corpo e a minha mente de toda a raiva que nos ligou.

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