O (Mal) Dito SEXO…

Não existem realidades óbvias.

O que é óbvio para uns não faz sentido para outros.

Nestas ultimas semanas o tema “Traição” , excesso ou Falta de Sexo é recorrente em algumas sessões.

“O meu casamento tinha tudo para dar certo, mas faltava sexo… depois com a mulher com quem traí o sexo era maravilhoso, mas nem assim a relação resultou… neste momento já estou num casamento há 15 anos e o problema repete-se, deixa de haver sexo pelo menos com a assiduidade que eu preciso, as coisas são como são, nunca perdi muito tempo a pensar nisso, é avançar”

“Nunca discutímos, a minha mulher é linda, mas o sexo é mau… não sou nenhum santo… já tive alguns escapes… não penso muito nisso, é como é!”

” A minha mulher é muito activa e eu não tenho como lhe explicar que sou uma pessoa que não precisa de sexo, talvez não seja muito normal, ao principio tudo fluía de uma forma intensa, mas com o tempo fui acalmando, o que é perfeitamente normal, mas ela não entende, acha que eu não já não gosto dela ou ando a olhar para outras… para ela isto é obvio, a mim não faz sentido nenhum!”

“Sempre gostei de sexo mas não preciso de sexo, entendo-me bem com o meu companheiro, para mim o sexo é só mais uma das coisas que podemos fazer juntos, mas não tem hora, nem dia marcado… o meu corpo não pede actividade sexual e ele exerce uma pressão enorme sobre mim conta os dias e as semanas como se eu estivesse em falta… Já falamos muitas vezes sobre isso, para ele ter sexo é uma necessidade organica, para mim um acto de amor e partilha, não consigo encarar a actividade sexual como se fosse uma IDA ao ginásio, para mim existe um conceito energético uma troca profunda… Cumprir com os seus desejos, faz me sentir que estou a usar o meu corpo como um parque de diversões e isso não me faz bem, eu não consigo… E acredite que mesmo quando tenho vontade e pressão que ele faz tira-me a vontade toda… Eu sei que existem pessoas que ligam o sexo á auto estima, mas isso é muito doloroso para quem tem uma visão da vida sexual como eu tenho!”

“Tive cancro na próstata e o sexo acabou, agora já não presto para nada, já não sou homem, sinto uma tristeza profunda!”

” A minha mulher teve cancro na mama e todo o processo retirou-lhe a vontade de ter sexo, viajámos juntos ao longo destes 22 anos e vamos continuar a viajar, ela sente uma culpa enorme por me privar e eu não tenho como lhe explicar que está tudo bem, nunca estive com ela por causa do sexo, a vida a dois vai muito para além das trocas sexuais, não a trocava por nenhuma mulher furacão sexual”…

O sexo ligado à auto-estima reflete algum desequilíbrio emocional. Há uma significação individual que leva a que a pessoa procure na relação sexual equilibrio emocional, quanto mais fraca a sua estima maior a necessidade de sexo. Esta ligação sexo/estima pode levar a graves problemas no casamento. Muitas traições acontecem pela necessidade, de aumentar a auto estima. Nos homens especialmente, esta associação sexo vs auto-estima além de todas as questões individuais é validada por conceitos culturais, sociais sistémicos de dezenas de gerações: o homem viril, o homem macho, o homem capaz…

A Carlota foi abusada em criança. Quando começou a namorar tinha uma vida normal com o namorado, mas quando a relação estabilizou deixou de ter tanta vontade e a. cobrança do namorado deixava-a desconfortável e com a sensação de que estava a ser invadida.

Cada um tem de olhar para si e perceber a função e as ligações que o sexo tem na sua vida.

É normal numa primeira fase as relações sexuais fluirem, por toda a adrenalina, química de paixão e necessidade de proximidade, no passo seguinte as dinâmicas podem desajustar-se, em conformidade com o papel e significação desempenhada pelo sexo na vida de cada um: a relação com o corpo, a educação sexual ou ausência dela, as vivências na infância de cada um, a realidade familiar, a sociedade… tudo vai determinar a nossa envolvência na vida sexual e na vida a dois.

Numa sociedade onde somos diariamente estimulados à sedução entre homens e mulheres, através de publicidade, filmes, musica, fotos, redes sociais etc, talvez tenhamos de rever o valor ou o papel do sexo nas relações… Talvez a forma com o interpretamos e ligamos sexo ao amor esteja fora de contexto. Talvez seja necessário que individualmente cada um reconheça a origem do seu apetite sexual e que o cure ou equilibre ou busque apenas companheiros com o mesmo apetite. Não é justo exigir do companheiro que seja uma fonte permanente de saciar esse apetite. Por outro lado é preciso deixar de atribuir à falta de sexo a razão da traição, pois não é de todo acção reacção.

Somos muito mais que seres sexuais, somos muito mais que fonte de desejo e prazer. A relação doentia e exarcebada com o sexo, estimulada social e culturalmente, torna as relações disfuncionais e quimicamente dependentes, tal como acontece com o alcool, drogas ou compulsões alimentares.

Há um ciclo viciado em traições com a premissa “da falta de sexo”, mas talvez esteja na hora de olhar para o Tema com outros olhos porque o sexo nada mais é que uma necessidade organica, que pode ou não ser acompanhada de afeto e amor e cabe a cada um perceber que tipo de sexo preciso ? Para quem ? Para que efeito ?

E para os que não querem pensar muito nisso, talvez não seja má ideia antes de trair por necessidades sexuais, observar os efeitos que essa traição terá no contexto familiar; na futura relação de confiança com a ex-mulher , na relação de confiança com os filhos e no exemplo educativo provocado por escolhas baseadas em impulsos sexuais.

A traição não pode ser colocada para “baixo” do tapete como se nada fosse, os abortos feitos pelas amantes não podem ser esquecidos como se nada fosse, as mentiras á familia, o rompimento de laços de confiança, tudo fica no nosso sistema, tudo influencia a vida de todos do sistema e determina a qualidade das relações que vão criar no futuro. Talvez esteja na hora de olhar para a nossa existência como um todo e não apenas como fruto dos nossos desejos primitivos… já todos sabemos a influencia que a sociedade tem sobre nós , já existe conhecimento de sobra, sobre a nossa capacidade de nos observar e alterar as nossas escolhas, de como o exemplo é o melhor professor… permanecer no mesmo comportamento é deixar aos nossos filhos um fraco legado e uma fraca aprendizagem sobre o valor dos relacionamentos entre companheiros!

Observemos-nos tanto quanto possível… e deixemos-nos de desculpas esfarrapadas…

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