Tapar os ouvidos !

” Era tão duro o que me dizia, que a partir de uma certa altura, TAPAVA os ouvidos… pouco importava a violência do que ele dizia, nem a raiva que eu poderia sentir, assim que colocava aquele tom de voz eu já sabia que vinha, uma avalanche de ofensas, tudo o que queria era não ouvir, não sentir o IMPACTO daquelas palavras no meu coração… Tinha vinte de dois anos mas sentia-me uma criança… pouco importava, tudo o que queria era fingir que não estava a acontecer ! ”

Há quem diga que o maior bloqueio à boa comunicação, está na reactividade, mais de 90% das pessoas, ouve para responder, contra 10% que escutam para compreender e depois sim, respondem de forma assertiva e construtiva.

Ainda que seja verdade que a maioria das pessoas responda de forma apressada, sem grande reflexão e que esse seja um facto que justifica a má comunicação, é importante tentar perceber o que motiva esta pressa :

Porque há pressa em dar resposta ?

Há vaidade em ter a resposta pronta, na ponta da lingua ?

Somos mais inteligentes se respondermos rapidamente ?

A rapidez é premiada ?

Ou

Existirá efectivamente medo de escutar ?

O que poderá estar por trás da experiência de cada um, que o leva a não querer escutar ?

A comunicação das ultimas décadas tem apostado na rapidez, criar opinião publica rapidamente, influenciar e manipular a comunicação, não deixando muito espaço para a duvida, pensamento critico ou para perguntas. Tudo é muito rápido.

Mesmo em decisões individuais, observemos: Uma simples reserva de hotel, para um fim de semana de férias no Booking, pressiona a nossa capacidade de decisão, não nos deixando grande margem para refletir.

Há uns anos li um livro que falava sobre a importância da rápida capacidade de decisão no mundo dos negócios, segundo o autor, esta era uma capacidade apenas de alguns. E se é certo que perante situações de perigo é bom ter uma boa capacidade de resolução, também não é menos correcto que existem respostas que não podem ser dadas por impulso…

Na abertura deste texto é relatada a experiência da Ana com o ex marido. O relato surge, na sequência de um trabalho de desenvolvimento pessoal. Aos 44 anos a Ana queria perceber a razão pela qual perdeu capacidade de escutar..!

O Carlos tem outra questão

“Quando alguém se dirige a mim, o principal foco está em encontrar uma resposta que me faça sentir por cima, tenho de ter resposta… A partir de um determinado tom de voz, deixo de assimilar informação, a minha mente busca de imediato uma justificação e o pior de tudo é que, embora disfarce, começo a tremer por dentro.”

A minha pergunta para o Carlos foi:

– O que tanto lhe custou ouvir, do que tem medo ?

Já o Pedro

“Sei que tenho um medo terrível de errar, sou muito exigente comigo e sempre que me apontam alguma coisa, fico surdo , não processo mais nada , fico com vergonha de mim mesmo , com raiva mesmo… pouco importa o que me dizem a seguir ! Este comportamento está a dar cabo de mim, até porque tenho plena consciência que perco oportunidade de evoluir… fico obcecado, parado no erro cometido e não avanço…”

E no caso da Luisa:

“Era gozada por ser lenta, por escutar e só depois responder… diziam que eu “funcionava a vapor” (muito devagar)… já a minha irmã era admirada, por ter sempre resposta pronta na ponta da língua… para mim ser rápida a dar resposta sempre foi o mais importante, talvez por isso responda sempre por impulso!”

Este texto não pretende dar respostas.

É normal nas redes ver muitos post que nos despertam a atenção, porque realmente fazem sentido e por fazer sentido temos tendência a achar que está certo, que é um mal geral .

No entanto quando escutamos pessoas, conseguimos perceber que existem dinâmicas diferentes para um mesmo comportamento e que talvez tudo comece muito antes do que nos lembramos.

Há um sistema social, histórico, politico, cultural e educativo que exige há muitos anos, respostas rápidas em troca de sucesso… Existe a vontade de chegar rápido ao topo e a impaciência de esperar por melhores oportunidades… Escutar é perder tempo… Aliás nos dias que correm tudo é uma perda de tempo… Não se veem videos até ao fim… toda a mensagem tem de chegar aos ouvidos, olhos e sentidos em tempo record, preferencialmente para gerar reacção imediata…

Ainda que a tecnologia esteja muito avançada, em matéria de comunicação humana, não existe nenhuma aplicação que interprete o que o outro tem para nos dizer de forma assertiva e coerente.

Nenhuma rede social nos alertará para o verdadeiro conteúdo de uma mensagem, nem para os nossos erros de interpretação motivados pela pressa em responder e pela incapacidade de escutar e sentir o outro. Esse é um trabalho que nos cabe… e como qualquer trabalho… LEVA TEMPO!

Escutemos, observemos…

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