a mudança no gerÊS

“Resistir á mudança” é próprio do ser humano, uns falam que é por questões de conforto outros por medo do desconhecido.

Mas para que a mudança aconteça e funcione no nosso processo evolutivo, tem de ser voluntária, caso sejamos forçados é dado espaço a “trauma” e criada resistência que pode atravessar várias gerações.

Na visão sistémica resistir à mudança tem diversas leituras e muitas vezes, pode não estar relacionada com o “nosso” presente, mas sim com lealdades a memórias dos nossos ancestrais, que por motivos familiares, religiosos, sociais, culturais ou políticos, foram forçados a mudar contra a sua vontade…

Não me é possível visitar um país, localidade ou ficar hospedada num turismo rural sem sentir o ambiente à minha volta.

Em 2022 regressei ao Gerês passados 25 anos.

Até 1999 visitava o Gerês anualmente.

Em 1990 vinha com amigos e aproveitava as férias do verão, a partir de 1994 comecei a optar pelo outono pois conseguia estar em maior harmonia com a região, do que na azáfama do verão. Na verdade, preferia ficar longe dos banhos e das já existentes diversões nas barragens. Não conseguia sentir grande diversão nesse modelo artificial, algo não batia certo. No outono sentia as pessoas de verdade, sempre foi do que mais gostei ,sentir as pessoas.

Há 25 anos em Brufe, uma aldeia agora considerada Lugar de interesse turístico, ainda não havia luz, soube agora que foi a ultima a ter electricidade. Em 1997, dois habitantes receberam-nos e mostraram a Aldeia. Um dos locais que mantinham bem cuidado, era a Escola primária, símbolo do esforço em aprender. O Senhor que nos guiou já com 86 anos, dizia ter perdido o interesse na Vila do Gerês, onde já não ía há mais de 25 anos, desde que a barragem de Vilarinho das Furnas tinha invadido mais uma aldeia. Dizia que tudo estava demasiado corrompido e que a vila tinha perdido a sua essência para os senhores das barragens! As suas palavras e a vontade de ficar isolado, longe da evolução, ficaram para sempre comigo…Mal sabia eu o que este sábio homem queria dizer!

Estamos em Setembro, regressei ao Gerês, mais concretamente nas Vilas do Agrinho em Valdozende, uma povoação ao largo da Barragem da Caniçada.

Uma nascente passa mesmo ao lado do meu quarto, oiço noite e dia a água cair nesta vila da Cascata ,que aluguei por 10 dias.

Fizemos alguns passeios por pontes, cascatas e vilas rústicas que revelam uma parte da história. Mas como nos anos 90 sinto sempre por aqui, que existem histórias que ficaram por contar. Continuo com a mesma sensação em relação às barragens, como se não devessem estar ali , pelo menos da forma como estão. E o mais curioso é o facto de continuar a sentir nas dinâmicas culturais e turísticas, resistência à mudança.

Uns amigos diziam:

” Isto tinha tudo para ser uma zona ordenada e turisticamente atraente, mas parece que continua sem nenhum plano arquitectónico, como se cada um chegasse e fizesse como entende, cada um por si … existem nas barragens novas diversões, embarcações e brinquedos de recreio mas fora da barragem a estética não acompanha é tudo um bocado feio sem cuidado cada um faz à sua maneira”

Não considero que seja feio, mas sim rude, aparentemente “sem cuidado” como se tudo fosse provisório ou inacabado. Nesta conversa referi que achei estranho a casas terem sido construídas em pontos tão altos e os caminhos serem tão íngremes para chegar a qualquer lugar, Como se fugissem do rio, quando na realidade as aldeias sempre se construíram, junto dos leitos para aproveitar a água. De facto algo de estranho se passou aqui, existem dinâmicas que não fazem sentido, o homem sempre encontrou forma de facilitar o seu trabalho e aqui parece que tudo está ao contrário!

Terceira noite em Valdozende com a cascata ao lado do meu quarto e a meio da noite um sonho; gritos muitos gritos e muita água. Acordo incomodada, talvez esteja a estranhar a almofada ou a cama. Talvez tenha de fazer um feng shui para o quarto. Os sinos tocam de hora a hora e até às 5 da manha não falhei um, mas o cansaço venceu. Acordei inquieta com o meu sonho e com as questões que trouxe da conversa com os amigos. Talvez as pessoas daqui não queiram tornar a terra mais atrativa ? Talvez não seja importante para eles que muitos queiram para aqui vir ? Talvez tenha acontecido algo no passado que tenha deixado nos campos morfo energéticos da região medo de mudar!…

Eu e esta mania de olhar para tudo com uma visão sistémica, e com a consciência que nada é assim porque sim!… levou-me a investigar!

Perguntas:

-Porque a partir de uma certa altura fugiram do rio e construíram tudo em pontos tão altos que tornam a vida mais dificil ?

-Porque motivo fogem dos cliches turísticos , estéticos, económicos ?

-Porque há um desfasamento tão grande entre as dinâmicas das barragens e as dinâmicas terrestres ?

-Porque parece que não querem evoluir ou porque resistem tanto á mudança ?

-Porque parece não existir unidade entre as pessoas, como se cada um estivesse no seu canto ?

-Existe algo para ser visto que ninguém quer ver ?

-Poderá o ser “Feio” um mecanismo de sobrevivência ?

Acho que encontrei algumas respostas.

SOBRE A BARRAGEM DA CANIÇADA

O que aconteceu a 10 de Outubro de 1955 e nas semanas anteriores dava para um filme ou uma telenovela. Quando a água tomou conta dos campos agrícolas e entrou casas adentro, a população de Vilar da Veiga deu-se conta que estava metida numa grande alhada. Apesar de estar avisada que um dia os caudais dos rios Caldo e Cávado se juntariam para encher a recém-construída Barragem da Caniçada, a gente da aldeia de Terras de Bouro só teve tempo de arregaçar as calças e as saias e fugir.

Tudo começou quando nos anos 50 do século passado Oliveira Salazar autorizou a construção da Barragem da Caniçada. Logo se ficou a saber que grandes parcelas das povoações de Rio Caldo, Valdozende e Vilar da Veiga ficariam submersas.

Foi nesse domingo chuvoso de 1955 que terrenos agrícolas, largas dezenas de casas, estábulos, alfaias agrícolas, o cemitério e uma escola primária ficaram debaixo de água.

Vilar Antiga como hoje é referida pelos mais velhos, a “gente grande”, viveu, então, “uma hora de grande sofrimento”.

“O povo sabia que mais dia, menos dia, a água ia chegar, mas não quis saber. Deixou-se andar», conta Manuel Ferreira, de alcunha ‘Matateu’, “Acho que o povo não acreditava que Vilar da Veiga fosse inundado. E foi adiando a mudança, até que água começou a entrar pelas casas. Foi um pandemónio”, diz. “Foi uma coisa ruim ver a água afogar aldeia”.

Apesar de ser ainda “muito criança”, a mãe de Isabel Pacheco, funcionária da Junta de Freguesia, também não esqueceu aquele momento de “grande angústia e desespero. Minha mãe conta que as pessoas foram apanhadas de surpresa já com a água a bater na porta”, conta Isabel.

“Não houve tempo para nada. Foi uma correria para salvar alguma coisinha das casas”, confirma Manuel ‘Matateu, que aos 86 anos recorda que muitos por pouco não conseguiam sequer retirar do interior “algumas peças de mobília”. Na altura com 20 anos, ainda tem gravada a imagem de pessoas, entre gritos, “a tentar salvar o pouco que tinham”.

Conta ainda que, segundo se constou na época, um idoso acamado teve que ser tirado à pressa ainda encima do colchão. “Podia ter morrido afogado se os vizinhos não fossem tirá-lo da casa à força. Não queria sair da casa onde viveu sempre”.

“(…) Houve pessoas que tiveram de ser tiradas das casas de forma violenta quando a água estava mesmo a entrar dentro das casas”, confirma António José Soares Pereira (AJSP) na obra ‘Vidas de um Povo’ (ed. autor, 2016).

“É que no geral as pessoas estavam incrédulas, não acreditavam na realidade que as esperava e foram adiando o momento do despejo, o que veio causar toda a confusão que se viveu”, escreve AJSP.

Em contrapartida, garante, a aldeia “não ganhou grande coisa com o negócio; a verdade é que não recebeu nada em troca”. A não ser as duas pontes de Edgar Cardoso, em substituição das que ficaram submersas, e uma estrada nova, também em substituição da antiga. “Foi troca por troca”.

“Os três bailaricos de domingo que fazíamos em ponto diferentes da aldeia também acabaram para sempre”, desabafa. Os bailes eram “ponto de encontro sagrado” de novos e velhos e “uma festa” para toda a população, as famílias, que até então “viviam muito unidas, casa com casa, em comunidade” foram “cada uma para cada lado, Alguns mudaram de concelho, muitos nunca mais se viram”

“O sacerdote foi afastado de Vilar e “o povo nunca mais soube dele, desapareceu”, conta ‘Matateu’ com um gesto de quem sabe mais do que conta. Um homem de coragem” e “sem medo” de desafiar o Estado Novo e a sua polícia politica, é assim que o lembram a ‘gente grande’.”

A frase: “POR DEBAIXO DO ESPELHO DE ÁGUA ESTÁ UM MODO DE VIDA COMUNITÁRIO QUE DESAPARECEU”, (in Armando Martins) poderia explicar muito do que por aqui se sente.

Afinal a barragem onde muitos se divertem tem uma enorme carga de sofrimento humano. Sofrimento não reconhecido, nem gratidão expressa a tudo o que perderam, por um bem comum .

A forma abrupta como estas pessoas perderam a vida comunitária a qual estavam agarrados com unhas e dentes, os relacionamentos, bens, hábitos, tradições e a relação com o Rio, sem receber nada em troca, pode muito bem ditar a resistência e ou o MEDO à mudança que por aqui se sente. E a fuga do rio, para os pontos altos, prevenindo o trauma de perder tudo outra vez .

Este episódio, pode também ter alimentado a crença de que uma terra para sobreviver à invasão da tecnologia, deve manter-se desinteressante, desengonçada ou “FEIA” como diziam os meus amigos.

E aqui entramos no campo das informações sistémicas. A resistência à mudança já existia nestas gentes. A mudança foi feita á força e contra a vontade. Ao que se resiste ,persiste. E assim a resistência é aumentada e ganha força, ficando subtilmente gravada no campo de gerações após gerações, o que “energéticamente” determina o resto da história e por isso por aqui se sente essa resistência.

Pouco importa onde o meu sonho me levou. Estou em Valdozende uma das vilas que foi inundada para dar lugar à barragem da Caniçada a 10 de Outubro de 1955 onde as pessoas eram tratadas por “Gente Grande”.

Na minha humilde passagem por aqui, um mês antes de fazer 67 anos sobre a inundação das três aldeias, fiz um exercício sistémico e coloquei: as três aldeias e as “gentes grandes” 1776 almas que aqui habitavam, chamei o padre (que desapareceu), a pide, e os senhores da barragem. Para cada um acendi uma vela. porque todos fazem parte do que aconteceu, assim todos são VISTOS na paisagem onde hoje desfrutamos, na barragem onde todos se divertem.

Nesta dinâmica agradeci à comunidade o exemplo de união e determinação, que os levou a resistir até à ultima, ao padre por ter lutado até ao fim pelo seu rebanho, numa luta desigual com um sistema politico cego que pouco queria saber da união comunitária. Que graças ao sacrifício das suas aldeias, a caniçada hoje alimenta uma das centrais eléctricas fundamentais para a produção de energia não poluente em Portugal e que, ainda que não consigam encontrar outro motivo, a imersão destas aldeias poupou ao planeta milhões em poluentes fosseis. E em meu nome e de todos que valorizam a preservação do nosso planeta, lhes sou grata. Que com a crise energética que se avizinha talvez o Gerês seja poupado a falhas energéticas e posto isto, que talvez seja o momento de cada um descansar em paz e permitir que a evolução aconteça para o bem de todos os descendentes, confiando na determinação que lhes deixaram como herança, e na sua capacidade de dar a volta, para que as mudanças não quebrem as relações e façam acontecer novamente a vida em comunidade e as danças e ainda recuperem sem medo de perder, a conexão com os rios e com a natureza, que é afinal uma dádiva que poucos tem…

No final deste exercício regressei à minha noite de insónia onde a àgua e os gritos me acordaram sem saber muito bem porquê e levaram a investigar a história deste local. E ainda que tudo possa parecer estranho, estamos em noite de lua cheia… talvez seja por isso … ou talvez não.

Excertos da historia in https://www.pressminho.pt/foi-uma-coisa-ruim-ver-a-agua-da-canicada-afogar-vilar-da-veiga-a-historia-submersa-das-pontes-de-rio-caldo/

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